Longevidade: do Auto-Cuidado à Auto-Mestria

Amrita é uma palavra em sânscrito que significa elixir da longa vida, seiva ou néctar sagrado da imortalidade, e relaciona-se de forma geral com o conceito do prolongar da vida de forma saudável, plena e sobretudo amorosamente grata e feliz.

Ayurveda, com o grande condão que traz de transformar e regenerar o nosso quotidiano, é um amrita; ela enaltece os pequenos hábitos da nossa rotina diária (dina charya) como as pérolas que nutrem e qualificam a vibração do nosso corpo. O conjunto de todas as práticas quotidianas edificam a excelência da nossa estrutura, tanto física como psico-emocional, e enaltecem, constroem e compõe os pequenos (grandes) passos que abrem o nosso caminho, crescimento e evolução espiritual.

CONSTITUIÇÃO DE NASCIMENTO | PRAKRITI

Sem conhecermos quem somos, com que ritmo bate o nosso coração, e de forma digere e absorve o nosso corpo os nutrientes que ingerimos ao longo do dia, sentimos de forma mais marcada a adversidade e os obstáculos do nosso quotidiano, porque faltam-nos as ferramentas para lidarmos com os nossos desafios quotidianos.

Muito para lá de ser apenas uma filosofia medicinal, a Ayurveda é uma sábia doutrina do autoconhecimento. Quando regulamos os nossos hábitos em função do conhecimento da vibração singular do nosso corpo, a oportunidade de entrarmos facilmente em sincronia connosco mesmos fica amplificada. A compreensão da nossa constituição individual abre o o caminho para uma mais simples integração de pequenas rotinas conscientemente sintonizadas com as necessidades particulares do nosso corpo.

MEDITAÇÃO E MANTRATERAPIA

A atual física quântica expressa, de forma muito resumida, que nós somos matéria em vibração. Compreende-se no hermetismo que o universo é mental. Na filosofia védica, o cuidado com a saúde e o equilíbrio da mente é uma parte fundamental e intrínseca do nosso desenvolvimento pessoal, e faz parte da rotina diária higienizarmos a nossa mente, tal como banhamos o nosso corpo. A mente, como esta lente através da qual vemos a vida, traz o desafio de se saturar de informação, a maior parte dela obsoleta, e que nós empacotamos no nosso mental em vez de a descartarmos diariamente.

Por armazenarmos tanta informação desnecessária perdemos a clareza que precisamos para nos observarmos. A meditação regular é uma forma simples de promoção da confiança na nossa própria fluidez e estrutura mental, e edifica uma inteligência mais abrangente e subtil.

Quando à prática da meditação regular adicionamos a mantraterapia, acionamos a capacidade e a vontade de sublimarmos a nossa mente, e de mantermos um elevado estado de vibração interna. O som é a ferramenta primordial da Criação, e a ele subjaz a potencialidade de conduzirmos eficazmente a nossa intenção de uma vida pródiga e feliz.

DIGESTÃO E ASSIMILAÇÃO

Cada um de nós digere a vida de forma diferente. Cada um de nós assimila conteúdos de modo distinto. O mesmo ressoa no nosso corpo. Todos os corpos vibram forma única. Isto implica que precisamos de aceitar que nem todas as pessoas podem ingerir o mesmo tipo de alimentos (e de pensamentos e emoções), com a mesma facilidade, e com a mesma velocidade.

A digestão é das funções mais relevantes do nosso corpo, já que ela dita a eficiência do funcionamento de outros sistemas, intervém diretamente na estabilidade da nossa mente, na homeostase do organismo e na gestão dos recursos energéticos do corpo, impactando a nossa disponibilidade para desfrutarmos a vida, a nossa capacidade de atenção, e o nosso progresso espiritual.

Na Ayurveda, o Vata digere de forma instável, o Pitta metaboliza rápida e ardentemente, e o Kapha perde-se na sua lentidão. De qualquer forma, estes padrões são ainda assim gerais, e existem muitos fatores que intervém na qualidade da digestão, e muitas particularidades que condicionam a nossa capacidade de assimilação, nomeadamente a hora da refeição, a estação do ano, a hereditariedade, a geografia (a nossa localização), os hábitos arraigados, entre outros fatores.

Somos acima de tudo aquilo que temos a capacidade de assimilar, já que aquilo que absorvemos e processamos passa a fazer parte da nossa identidade vibracional, das nossas ideias, da nossa postura na vida.

AYURVEDA E ALIMENTAÇÃO

Se a digestão é tão fundamental para a compreensão da nossa individualidade, a construção da mesma depende muitos dos alimentos que escolhemos ingerir. Para lá de serem nutrientes, os alimentos são informação vibracional; eles carregam a história de quem os cultivou, processou, cozinhou, e toda essa manancial de dados energéticos penetram a nossa corrente sanguínea tal como integram as nossas impressões mentais.

Na Ayurveda, cada um dos humores carece de um tipo de alimentação específica que se adeque à sua constituição, à temperatura habitual do corpo, ao seu ritmo de processamento, às necessidades nutritivas particulares, entre outros fatores.

Quando nos permitirmos organizar uma estrutura de rotina nutricional que favorece o funcionamento do nosso corpo, as nossas escolhas alimentares constituem então a base da eficácia dessa proposta de auto-reconstrução, e compreendermos que a terapia alimentar mais adequada ao nosso corpo agiliza a integração de todos as outras dimensões da nossa Vida.

CICLOS E RITMOS NA AYURVEDA

Uma das Leis Herméticas diz que tudo é cíclico. A estrutura terapêutica da Ayurveda confirma e corrobora esta afirmação, e por isso mesmo, todas as rotinas são construídas em função da dimensão do Tempo, e da sua cadência.

Independentemente do ritmo que a vida atual nos impõe, a Natureza, e o nosso corpo – que é a Natureza a vibrar em nós – tem um ritmo próprio. Existem ciclos corporais naturais de metabolização de alimentos, emoções, pensamentos, toxinas; existem ritmos de sono, ritmos de fecundação, até o ritmo do nosso pulso altera-se de acordo com a hora, o momento do dia, a estação do ano, e, contudo, sempre em sintonia com o pulsar da Mãe Terra. Muitos dos desequilíbrios surgem precisamente pela inexistência de ritmo, e por uma desatenção instalada em relação ao pulsar da Vida no nosso corpo. Quando estamos dessincronizados adquirimos outro ritmo de vida, que entra em resistência com a cadência do pulsar da Terra. Dormir demasiado tarde, ou durante o dia. Comer fora do horário das refeições. Falhar a hora ideal para evacuar, e/ou conter a urina. Estes são alguns dos exemplos de como podemos facilmente desequilibrar-nos.

Para além do ritmo da alimentação, existem rituais da manhã e do sono, e os ritmos de desintoxicação que acompanham os ciclos da natureza e as suas estações, e o compasso entre o comer e o sabiamente jejuar.

Existem horas adequadas para a ingestão de cada alimento, assim como existem estações do ano, e corpos que melhor os absorvem. Tudo na Ayurveda é uma dança harmoniosa ou descompassada, dependendo da frequência com que seguimos as orientações naturais do organismo e a inteligência do nosso corpo.

BELEZA, COSMÉTICA E AUTOMASSAGEM

Na Ayurveda, a beleza é uma vibração intrínseca ao perfeito estado de saúde, podendo ser considerada um sinónimo do nosso estado de equilíbrio e bem-estar. É belo o corpo que emana a sua homeostase, que está em sintonia com a sua matriz, que reverbera com a sua constituição e que flui com a cadência da vida.

A cosmética na Ayurveda é uma ampliação do conceito de saúde, prevenção e autocuidado. Procura-se em todos os produtos aplicados que os seus nutrientes e a sua emanação energética seja integrada na nossa própria vibração. Os cuidados da cosmética são também um treino do tempo, da paciência, do saber parar, e contribuem em muito para o amor-próprio e a autoestima. Todos os pequenos momentos em que observamos as necessidades deste nosso Templo-Corpo, e providenciamos o seu preenchimento, sentimos a abertura para a plenitude e para a satisfação na vida.

A automassagem é uma melhores expressões do amor-próprio. O nosso corpo aprecia ainda mais uma massagem feita por nós mesmos, já que para a sua execução a nossa atenção fica totalmente focada em todos os nossos pequenos pormenores: a intensidade e a pressão do toque que precisamos em determinadas partes do corpo, e que só nós podemos realmente sentir; a suavidade ou aspereza da nossa pele e o cuidado que necessita para ficar nutrida (lembrando que a pele é o nosso maior órgão e representa também os nossos limites que carecem de atenção e proteção); as fragrâncias que mais preenchem a nossa energia e que mais nos trazem a sensação de leveza e bem-estar; o ritmo e a frequência da massagem.

Parecendo carecer de profundidade, todos os nossos rituais de auto-nutrição e de cuidados estéticos fomentam a sensação de bem-estar e abrem caminho para uma maior ressonância com a nossa Essência.

AUTOMESTRIA COM A AYURVEDA

Quanto mais tomamos consciência de quem somos, mais percebemos que as grandes conquistas se fazem nos pequenos passos, na resiliência rotineira, nas mínimas e singulares mudanças de hábitos que transformam a direção completa da nossa Vida.

A nossa automestria está substanciada no nosso Autoconhecimento, e nas práticas diárias que nutrem o nosso crescimento como pessoas, o nosso desenvolvimento pessoal, a nossa evolução. Quando integramos a plenitude da rotina diária ayurvédica, ela torna-se o nosso amrita, o nosso elixir da longevidade, e conduz-nos com simplicidade e perseverança à nossa automestria espiritual, cumprindo o propósito com que foi criada e estabelecida.

Michele Pó 🌺

https://mood.sapo.pt/longevidade-do-autocuidado-a-automestria/

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: