Laticínios e a Ayurveda – porque se utilizam?

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Os laticínios, em especial o leite e o ghee (manteiga clarificada), continuam a ser uma parte importante das recomendações dietéticas ayurvédicas, e são ingredientes comuns nos medicamentos ayurvédicos e nos produtos à base de plantas.

A vaca na cultura da Índia

Na Índia as vacas são veneradas, reverenciadas como a mãe, Gomata, personificando a Mãe Terra, Bhumi Mata, como símbolo da abundância universal.

A sociedade agrária tradicional indiana baseia-se no cuidado da vaca. O estábulo ou o goshala é uma parte fundamental da vida, constituindo até um local para estudo e convívio. As vacas são parte da família, e a relação com elas começa desde a infância, quando as crianças que são encorajadas a integrá-las nas suas brincadeiras. O consumo da sua carne foi estritamente proibido, e o abate de vacas é considerado um crime grave. As vacas foram integradas da vida espiritual na Índia com os Vedas, e a maioria dos ashrams na Índia têm hoje em dia as suas próprias vacas e goshalas para uso quotidiano.

A vaca tradicional indiana é uma raça muito diferente das criadas no Ocidente. Ela tem uma constituição especial que a ajuda a coletar a luz do sol através de um surya nadi especial ou canal solar, a fim de produzir um leite de melhor qualidade. Embora produza menos leite que as raças modernas, o leite é de muito maior qualidade e mais fácil de digerir. A Ayurveda considera os laticínios, particularmente o leite e o ghee desta raça nativa, como os melhores para todas as recomendações de alimentos ayurvédicos e produtos fitoterápicos.

Os laticínios formam há muito uma parte importante da dieta indiana. O Ghee tem sido o principal óleo de cozinha recomendado. O leite tem sido uma importante bebida e ingrediente culinário. O Iogurte é tomado com a maioria das refeições sob a forma de lassi. No entanto, além de vacas, são usados outros animais, como as búfalas e as cabras, para se extrair o leite e produzir o ghee. Muitos medicamentos ayurvédicos e produtos fitoterápicos são feitos com laticínios ou ingeridos com eles.

Hoje em dia, mesmo na Índia, tem vindo a crescer o cuidado na criação respeitada deste animal, assim como o uso do leite de forma parcimoniosa e mais consciente.

O uso de Laticínios na Ayurveda

dairy_indiaMuitas dietas especiais e jejuns de cura do Yoga e da Ayurveda enfatizam o leite ou consistem principalmente dele, particularmente para os tratamentos de rejuvenescimento, fortalecimento e fertilidade. Leite, ghee, manteiga, iogurte, lassi, takra / chaas (buttermilk) e paneer são os principais laticínios utilizados na dieta.

A Ayurveda geralmente recomenda produtos de vaca para os tipos Vata e Pitta, tanto para as dietas quotidianas quanto para tratar doenças especiais, o que proporciona uma ampla variedade de aplicações. Aos tipos Kapha, que tendem ao excesso de muco, água e peso, é frequentemente recomendado o leite de cabra, devendo os mesmos evitar os produtos oriundos do leite de vaca.

Os gheit, medicamentos ayurvédicos (ghritams) formam uma extensa linha de produtos amplamente utilizados para fortalecer a mente e o sistema nervoso e combater as febres. Um bom exemplo disso é o Brahmi Ghritam, considerado um dos melhores remédios para o rejuvenescimento da mente e para promover a meditação. Shatavari Ghritam é um dos principais medicamentos para mulheres que nutre o sistema reprodutivo feminino.

Uma série de óleos de massagem ayurvédica dos quais existem numerosos tipos, embora baseados principalmente em óleo de sésamo ou coco, contêm por vezes leite ou ghee. O Kshirabala, por exemplo, um dos principais óleos para aplicação na cabeça, contém leite pelas suas propriedades refrescantes. Muitos óleos ayurvédicos contêm ghee, incluindo às vezes ghee de outros animais que não vacas. O Ghee na verdade pode ser usado como um óleo de massagem em si, para várias condições inflamatórias da pele. O famoso Chayavan Prash, uma geleia de ervas, contém ghee e esta forma de ingestão de ghee constitui uma outra linha significativa de produtos à base de plantas.

É habitual ver muitas ervas ayurvédicas, como a Ashwagandha, serem administradas com leite morno. O leite morno é frequentemente recomendado antes de dormir com várias ervas e especiarias, como o açafrão, açafrão-da-índia, noz-moscada, cardamomo, e com um pouco de ghee também. Também o iogurte é conhecido pelos seus diversos poderes de cura sendo particularmente usado para promover a longevidade.

O Ghee – Manteiga clarificada

gheeO Ghee é um alimento de sabor doce, refrescante e tem reacção doce no seu pós digestivo. É suave, nutritivo, pesado e frio, habitualmente produzido a partir da purificação da manteiga de leite de vaca ou da manteiga de leite de qualquer outro animal mamífero. Existem várias maneiras de denominá-lo como: óleo purificado da manteiga, manteiga clarificada, emoliente básico, manteiga de garrafa, usli-ghee.

Nos Shastras (escrituras sagradas antigas da Índia), e especialmente na Ayurveda, o Ghee tem diversas funções terapêuticas. Possui propriedades altamente rejuvenescedoras das células, incrementando a longevidade, melhorando a memória, a discriminação e a inteligência, fortalecendo os tecidos, fomentando a fertilidade. É um excelente alimento para a voz e para a garganta. O Ghee é muito importante para o crescimento das crianças por promover a construção dos sete Dathus (Tecidos Corporais), já que possui o mesmo valor nutritivo do leite. Contém ácidos gordos saturados em grandes quantidades, devendo por isso as pessoas obesas e com problemas de coração evitá-lo.

Tem também uma ação terapêutica no ardor, hemorragias, fraqueza, doenças dos olhos e ouvidos, dores abdominais, dores de cabeça, insanidade, epilepsia, desmaio, febre crónica, intoxicação, erupções, cortes, queimaduras, herpes, úlceras, enfermidades do peito e problemas mentais. Aumenta a quantidade de sémen e de energia vital (Pranshakti), e é benéfico para os órgãos genitais. Tomado em pequena quantidade aumenta o fogo digestivo. Melhora a compleição da pele, a beleza, o lustro. É adequado para sarar feridas, úlceras e doenças de pele. O ghee fresco e puro contém vitaminas A,D, E e K.

Elimina o envenenamento. Deve ser evitado: nas primeiras fases de uma doença, na perda de apetite, na tosse, diarreia, indigestão, desordens metabólicas associadas com o aumento da urina, como a diabetes, por recém-nascidos, pessoas idosas, pessoas com hábitos sedentários.

O Ghee é largamente utilizado na Fitoterapia tradicional, servindo como veículo para diversas ervas. As ervas são maceradas ou fervidas com o Ghee, e em seguida administra-se uma colher de sopa ou um cálice diariamente dependendo do caso. O Ghee tem como qualidade especial acender o fogo da digestão sem perturbar o Pitta. O Ghee que tenha sido envelhecido durante 10 anos ou mais converte-se num poderoso tónico que é utilizado como medicamento na Ayurveda, para tratamento de obesidade, epilepsia, dores de cabeça e problemas dos olhos e ouvidos; para isso, mescla-se em água e administra-se em gotas. Pessoas que tem problemas de obstipação podem tomar uma colher de Ghee com um copo de leite quente. Combinado com alcaçuz ou cálamo, é extensivamente usado na Ayurveda como um excelente tónico pulmonar.

Na culinária o ghee é um excelente alimento para abrir o apetite, já que incrementa o sabor de todos os alimentos, podendo ser utilizado para todos os tipos de preparações culinárias da mesma forma que os demais óleos, sendo contudo usado em menor quantidade.

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O conforto caseiro da Massagem Indiana à Cabeça

indian-head-massage2A massagem indiana à cabeça (ou “Champi” em hindi) é uma prática que teve origem há mais de quatro mil anos na Índia, oriunda de uma tradição e práticas de preparação e embelezamento da mulher para um noivado auspicioso. As Mães indianas tinham por hábito massajar o cabelo das suas filhas com diferentes óleos terapêuticos e aromáticos para estimular o seu crescimento e gerar longas e brilhantes madeixas. Com o tempo tornou-se popular em todas as faixas etárias tornado-se parte integrante das partilhas familiares quotidianas, e da rotina diária de prevenção relacionada com a saúde, longevidade e bem-estar. A Indian Head Massage, como também é conhecida, é praticada em bebés e crianças, para estimular a sua inteligência; nos jovens, para acalmar as alterações próprias da adolescência; nos adultos, para fomentar a sua boa disposição e foco; nos idosos para incrementar a sua longevidade e saúde.

Narendra Metha, um homem cego que cresceu numa comunidade indígena onde a Champi era uma parte importante da vida familiar e comunitária, foi a primeira pessoa a desenvolver e formalizar a massagem indiana numa terapia estruturada. A Champissage é hoje, uma das formas mais populares de massagem à cabeça – uma sequência registrada de movimentos de massagem.

Metha chegou à Inglaterra na década de 70, onde se formou como fisioterapeuta. Em 1978 ele retornou à Índia, onde estudou os benefícios e a prática da Champi. Metha incluiu também o pescoço, os ombros e o rosto na massagem, e empregou o conhecimento ancestral dos pontos Marma (Marmaterapia), com os conhecimentos de shiatsu e acupressão para relaxar áreas tensas, reequilibrar a energia e limpar quaisquer áreas de tensão concentrada.

Os benefícios da Champi

A Massagem indiana à Cabeça é um dos tratamentos principais recomendados pela Ayurveda na rotina diária para a prevenção dos distúrbios de Vata (Ar e Éter). A massagem age profundamente no corpo todo, aumentando o fluxo de Prana pelos canais ou Nadis. Eis alguns dos benefícios:

– Ela traz claridade à mente;

– Alivia e trata a insónia;

– Incrementa a memória;

– Alivia o stress e a ansiedade;

– Diminui a pressão alta e a fadiga crónica;

– Retrai a perda de cabelo, retarda a calvície, e diminui a incidência prematura de cabelos grisalhos porque aumenta a oxigenação e nutrição no couro cabeludo;

– Dinamiza a circulação sanguínea e a drenagem linfática na zona do pescoço, libertando o corpo de substâncias tóxicas;

– Aumenta o oxigénio e a glicose no cérebro, melhora a circulação do elemento vital (o fluído cerebroespinal);

– Aumenta a secreção de hormonas de crescimento e enzimas necessárias ao crescimento e desenvolvimento das células do cérebro;

– Aumenta o nível de energia prânica no cérebro, promove altos níveis de atenção e concentração, previne estados depressivos;

– Alivia a fibromialgia e a congestão das vias aéreas;

– Ajuda a recuperar dos efeitos nocivos da radiação acumulada pelo uso de telemóveis;

– Melhora a visão nos adultos, para além de fomentar o desenvolvimento da visão e do cérebro dos bebés de seis a nove meses de idade.

A Massagem indiana à cabeça trabalha em áreas afetadas pelo stresse mental e emocional e tem a capacidade de produzir um alívio bastante rápido. Pessoas que sofrem de dores de cabeça, enxaquecas, insónia, tinitis, vertigem e depressão podem beneficiar bastante com esta massagem.

O ar condicionado, a iluminação artificial do ambiente de escritório causam muitas vezes dores de cabeça, assim como ficar sentado à frente do computador o dia todo ou ao volante, pode resultar na formação de nódulos de tensão no pescoço e nos ombros.

Com a vantagem de poder ser realizada na postura sentada e a seco, a massagem indiana à cabeça tem vindo a tornar-se popular em grandes empresas, que as oferecem aos seus funcionários, como forma de aumentar a produtividade, reduzir o absentismo e fomentar a qualidade de vida dos seus trabalhadores.

O que esperar numa sessão de massagem à cabeça

serenity-indian-head-massageNormalmente realizada enquanto o paciente está sentado, esta massagem leva cerca de 20 a 30 minutos e está focada na parte superior das costas, ombros (eventualmente braços e mão), pescoço, cabeça e rosto para ajudar a aliviar uma variedade de condições relacionadas com o stresse, para além de libertar a tensão muscular.

O terapeuta colocará o foco em restaurar o equilíbrio e a harmonia trabalhando os três chakras superiores. Em sânscrito, essas áreas são chamadas Vishuddha (a base da garganta – a Tiróide), Ajna (a 3ª Visão – a Pituitátia) e Sahasrara (a coroa – a Pineal). O chakra (“roda” ou “disco”) é um centro de energia vital na forma de uma flor de lótus. A cabeça da “flor” é encontrada na parte frontal do corpo, estando o seu caule enraizado na coluna vertebral. Existem sete chakras principais situados em torno da coluna vertebral, começando pelo chakra da raiz na base da coluna, e terminando com o chakra da coroa – logo acima da cabeça. Quando o terapeuta equilibra os três chakras superiores, o resto dos chakras equilibram-se pela ressonância e vibração produzidas pela massagem.

Uma massagem de cabeça indiana profissional provoca uma sensação semelhante a uma massagem de reflexologia, que é realizada nos pés, mas que é sentida em todo o corpo. Isso ocorre porque existem vários pontos de Marma importantes na cabeça, que se refletem pelo corpo todo, e que quando sabiamente estimulados e reequilibrados produzem uma saúde e bem-estar perfeitos.

A massagem indiana na cabeça pode ser seca ou com a utilização de óleos medicados, sendo esta a mais habitual. Para além de nutrirem os cabelos, os óleos também acalmam o sistema nervoso, já que as raízes do cabelo estão ligadas às fibras nervosas.

Os óleos na Massagem indiana à cabeça

Indian-Head-Massage-smallUm dos óleos mais utilizados na Massagem Indiana à cabeça é o Óleo de Brahmi (Bacopa Monieri). Conhecido pelas suas propriedades regeneradoras dos neurónios e a estimulação da circulação sanguínea no cérebro, este óleo tem uma longa tradição de utilização como óleo capilar, diminuindo a inflamação provocada pelo excesso de Pitta, fomentado a inteligência em crianças pequenas, e a memória nos idosos, para além dos seus benefícios no tratamento de desequilíbrios do couro cabeludo.

Para a cobertura dos cabelos grisalhos e o tratamento da calvície, são habitualmente usados óleos com plantas antioxidantes que rejuvenescem o couro cabeludo, com o Óleo de Amla, o Óleo de Neem e o Óleo de Bringaraj.

Uma das fórmulas ayurvédicas mais conhecidas para o cuidado capilar, nutrição e fomento da memória é o Himtaj. Esta fórmula contém algumas das plantas já mencionadas além de outras menos comuns em Portugal.

Efeitos colaterais da Champi

massage head 1Todos os tratamentos têm as suas consequências no corpo, sendo alguns deles mais perturbadores do que outros. A Champi tem como base a observação da pessoa na sua dimensão holística, e como tal são tidas em conta as características específicas da massagem que deve ser aplicada em função do perfil, da idade, da condição física da pessoa, das suas necessidades individuais. Alguns dos efeitos da Massagem indiana à cabeça são os seguintes:

Efeito diurético: A Champi tende a eliminar todas as toxinas e resíduos do corpo. Consequentemente é natural que sinta uma vontade mais urgente de urinar após a massagem. É inclusive recomendável que ingira um pouco mais de água para coadjuvar neste processo de limpeza propiciado pela Champi.

Dores musculares: Ao ajudar a liberar todos os músculos tensos, a Champi tem por vezes como consequência o surgimento de alguma dor muscular após a massagem. A dor que surge no músculo está associada ao processo de reparação do mesmo.

Melhoria da consciência do nossa envolvência: A Champi tem muitas vezes como resultado uma melhoria significativa na perceção sensorial, consequência da melhoria da memória, da clareza proporcionada pela massagem. É muito adequado descansar após a terapia de forma a libertar todo o stresse, dor, tensão e peso que estava a ser carregado.

Baixa ligeiramente nível de açúcar no sangue: No caso de padecer de diabetes convém aferir o impacto que a massagem pode ter no seu corpo, confirmando os seus níveis de açúcar após a mesma, de modo a confirmar o benefício ou desequilíbrio que a Champi possa ou não trazer.

Rigidez dos ombros e pescoço: Para quem já sente os ombros e o pescoço rígidos, pode sentir a manipulação como algo um pouco intenso, aumentando por vezes um pouco a própria rigidez após a massagem. Essa dor agravada é temporária, e é resultado dos nós e músculos que foram libertos durante a Champi, sendo a mobilidade e liberdade dos músculos recuperada e melhorada pouco tempo depois da massagem.

Tonturas: A sensação de tonturas após a massagem pode ser um sintoma importante a ter em conta. A Champi tende a estimular a circulação do sangue em certas partes do corpo, e dependendo da condição física do mesmo, pode aumentar ou diminuir a pressão arterial. É natural que após a libertação da tensão a que o corpo estava sujeito surja uma certa leveza que provoque a sensação de desequilíbrio. Esta sensação é habitualmente passageira, diminuindo com a repetição do tratamento.

A massagem indiana à cabeça constitui um ícone de partilha, de geração de laços mais profundos entre os membros de uma família, e também entre amigos, fomenta ligações, boa disposição, saúde, alegria, bem-estar, e por isso tudo previne tristezas e desequilíbrios. Em suma, contém todos os ingredientes para continuar a ser uma excelente etapa a acrescer numa rotina e estilo de vida equilibrado e saudável.