Ayurveda e o Pós-parto | o nascimento da Mãe equilibrada

motherbaby-1024x682O parto dá à luz uma nova Mãe, tão delicada e sensível como o seu bebé recém-nascido. Nas seis semanas após o parto as mudanças que ocorrem no corpo da mulher são intensas, por vezes severas, e muitas vezes desenraizantes, como é habitualmente em qualquer aumento súbito do Vata. A energia da nova mãe está vulnerável tanto a nível físico, como também, emocional, mental e até espiritual, e todo o impacto que ela recebe deste intenso movimento e transição, tem consequências tanto no seu bebé, quanto na sua família. No pós-parto, a Ayurveda considera, por isso, a nova mãe, como a grande prioridade. Toda nutrição, amor e cuidado que ela receber, será naturalmente retribuído por ela em carinho, proteção, suporte e dedicação ao seu recém-nascido, e à sua família.

A depressão pós-parto tornou-se um lugar comum na nossa sociedade, em virtude da tendência em colocar-se o foco no bebé recém-nascido, que apesar de naturalmente necessitar de todo o cuidado e atenção, depende em quase 100% do bem-estar e equilíbrio da sua mãe.

O período pós-parto é, por isso, considerado vital para a recuperação e rejuvenescimento da mãe. O choro contínuo de um bebé em processo de encontrar um sono consonante pode produzir um grande desequilíbrio numa nova mãe desacompanhada.

O Pós-parto e o Vata | O que Mãe recebe, o bebé recebe

depNo corpo, o Vata é composto do elemento éter (espaço) e ar, e as suas qualidades são seco, leve, frio, móvel, subtil, claro, áspero e duro. O Vata é responsável por todos os movimentos e mudanças, e está ativo no corpo através da circulação, do nosso movimento muscular, pulsação, eliminação, sistema nervoso e processos de pensamento. Está por isso envolvido em todas as nossas mudanças, internas e externas, habilitando-nos para progredirmos e mudarmos na Vida.

O parto é uma força extrema de movimento e uma forma intensa de mudança no qual o Vata é intensamente provocado e aumentado. O incremento do Vata deve-se particularmente ao aumento súbito de espaço vazio deixado para trás no útero, após a expulsão do bebé. É assim natural que a nova mãe sinta um frio progressivo no seu corpo, que é neste caso perturbador e desequilibrante, e que necessita de cuidado, calor e carinho para se pacificar.

Com os sintomas do desequilíbrio do Vata pode surgir a insónia, os problemas de lactação, obstipação, pele seca, articulações secas e/ou doridas, sensação de frio, tremor, indigestão e cólica, medo e confusão, sinais de desequilíbrio de Vata no bebé e depressão pós-parto.

Quando as novas mães recebem cuidados pós-parto adequados, elas são menos propensas a sofrer de depressão pós-parto. A assistência pós-parto ayurvédica permite que as mães façam uma digestão mais saudável; tenham maior abundância de leite e imunidade; tenham mais energia, e façam uma regeneração e rejuvenescimento mais rápido; estabeleçam uma ligação mais profunda com o bebé, e tenham um relacionamento mais fluído com o companheiro e a família.

O bem-estar e a felicidade da nova mãe afeta a saúde familiar e o contentamento do bebé. A capacidade da mãe de se conectar com o bebé de forma amorosa afeta o sistema digestivo, a imunidade e as habilidades sociais do bebé. Após o parto a mente, o corpo e o coração do bebé estão profundamente abertos a todas as influências externas, em particular as da sua mãe.

Na Medicina Ayurvédica o foco é dado à prevenção e ao tratamento do desequilíbrio do Vata através de recomendações dietéticas, estilo de vida, fitoterapia, autocuidado, posturas e alongamentos (yoga), terapias corporais, e meditação.

Dor-na-Relacao-Sexual-Apos-uma-CesareaA massagem é uma parte fundamental dos cuidados pós-parto, habitualmente com óleo de sésamo, e azeite, sendo também aplicado óleo de coco na massagem à cabeça. É também recomendado um banho quente, em que água quente é vertida no abdómen inferior e na área pélvica da mãe. Normalmente, adicionam-se folhas de neem à água pelas suas propriedades antisépticas. Os sabonetes são substituídos por pó de grão de bico misturado com natas.

A amamentação e a Ayurveda

Baby eating mother's milk. Mother breastfeeding baby.A amamentação é única e individual para todas as mães, e quando elas se permitem honrar o seu natural instinto e sabedoria é mais provável que sejam bem sucedidas. Para que a amamentação flua de forma natural é importante que a nova mãe encontre um espaço de bem-estar e autocuidado na sua rotina diária.

Nessa rotina a consciência da respiração representa um papel fundamental. O bebé irá procurar sentir a respiração da mãe, sendo o ritmo respiratório o barómetro que permite ao bebé perceber o estado emocional da mãe, no intuito de a mimetizar. Quando amamenta a mãe pode tomar algum tempo para meditar, respirar, enraizar-se, e focar-se no equilíbrio das suas emoções, transmitindo assim aprendizagens subtis ao seu bebé.

Segundo o Charaka Samhita, um dos manuais de referência na Ayurveda, a amamentação e a oleação diária são as duas bases sólidas de nutrição e proteção do bebé. Idealmente, o bebé vive exclusivamente de leite materno por pelo menos 6 meses, e continua a amamentar pelo maior tempo possível. Ancestralmente a amamentação podia estender-se até aos 10 anos de idade. Na Ayurveda compreende-se que os anticorpos e imunidade presentes no leite da mãe são mais concentrados quanto mais tempo ela nutre, para compensar o fato de a criança não amamentar com tanta frequência.

Massagem diária da mama

Para preparar a amamentação a massagem diária da mama é um cuidado fundamental. Pode ser feita sozinha, ou com ajuda, antes ou depois do banho, de manhã ou à noite. Deve ser usado um óleo morno orgânico como girassol, coco, azeite, amêndoa ou óleo de sésamo, podendo a mãe consultar um terapeuta ayurvédico para descobrir qual é o óleo mais adequado à sua constituição. Existem muitos óleos infundidos à base de plantas ayurvédicas disponíveis para vários problemas. Ao criar o hábito de massajar os seios diariamente, ainda durante a gravidez evita a tendência aos ductos do leite entupidos.

Quando a mãe sofre de mastite deve evitar uma massagem vigorosa. Em vez disso, deve aplicar uma folha de repolho quente no seio infectado, descansar e aplicar pasta de açafrão da índia em torno do mamilo.

Uma dieta para um leito materno saudável

A dieta da mãe muito influente na qualidade do leite materno. O sistema digestivo tanto da mãe como do bebé é muito delicado após o parto, e basta apenas uma pequena quantidade dos alimentos desadequados para causar problemas.

É importante a mãe escolher alimentos e bebidas quentes, moles, assados, moídos, fáceis de digerir e nutrir. As refeições quentes e bem preparadas são realmente importantes. Sopas e ensopados são ótimos quando preparados com temperos digestivos, como cominhos, erva-doce, feno-grego, gengibre, aipo, feno-grego, açafrão da índia, pimenta do reino, alho, e coentros. Incluir de legumes, como cenouras, beterrabas, abóboras, abóboras, quiabos, espargos e inhames. Pudins preparados com cardamomo, cravinho-da-índia, canela e arroz, araruta ou aveia. O leite dourado e o ghee são alimentos privilegiados durante o período pós-parto.

O feijão mung e as lentilhas vermelhas que foram demolhadas durante a noite, e bem cozidas com açafrão da índia fornecem proteína facilmente digerível, assim como nozes e sementes demolhadas. Para os não-vegetarianos, a sopa de galinha é especialmente boa quando preparada com ossos para adicionar nutrientes.

A água é fervida com sementes de funcho e é dada à mãe frequentemente para aumentar o leite materno. Água fervida com sementes de feno-grego é dada após a refeição pela manhã para aliviar dores nas costas e nas articulações. Água fervida com sementes de jeera (cominhos) é dada para combater a infecção e a formação de gases.

O que evitar comer durante a amamentação

São de evitar todos os alimentos secos, frios, ásperos e difíceis de digerir, bem como substâncias estimulantes.

Quando uma nova mãe come muitos vegetais crus e saladas que são frias e ásperas, além de alimentos difíceis de digerir, o seu leite fica pesado e difícil de digerir, consequentemente o bebé provavelmente sofrerá de caimbras e cólicas.

Os alimentos difíceis de digerir incluem sobras de comida, queijo duro e frio, iogurte gelado, gelados, leite frio, água gelada, trigo, fritos, batatas fritas, e açúcar branco refinado. Substâncias muito estimulantes incluem café, chá preto, chocolate, álcool, açúcar refinado branco e alimentos picantes e muito quentes. Todos estes alimentos fazem produzem desequilíbrios e fomentam cólicas nos recém-nascidos.

Fórmula Angaya podi para o pós-natal

Angaya_PodiA Angaya podi é uma fórmula herbal pós-natal ayurvédica. É usada para manter a saúde e a beleza da mulher no pós-parto. Esta formulação tradicional é originária do estado de Tamil Nadu, no sul da Índia, perto de Kerala, onde é transmitida geração após geração. A fórmula tem o intuito de melhorar o poder digestivo da mulher, que fica debilitado após o parto. Entre os ingredientes encontram-se especiarias e plantas que estimulam a digestão, podendo esta receita ser usada por outros, especificamente aqueles que padecem de má digestão, diabetes, colesterol e flatulência.

Receita | Ingredientes

1/2 chávena de sementes de coentros

1/4 chávena de flores de neem secas ou 1/2 chávena de folhas de neem secas

1/4 de chávena de manathakkali vattal (maravilha seca ou sunberry ou solanum retroflexum)

20 a 30 bagas de sundakkai vattal (baga de peru seco ou solanum torvum)

1/2 chávena de folhas de caril

3 colheres de chá de pimenta preta

um pequeno pau de 1 polegada de kandda thippili ou pimenta longa

1 pimentão vermelho seco

3 colheres de chá de sementes de cominhos

1 colher de chá de sementes de aipo (ajwain)

um pequeno pedaço de gengibre seco

uma pitada de perungayam (assafoetida)

sal (de preferência sal de rocha) – a gosto

Instruções

Os ingredientes acima são fritos a seco (sem óleo) numa wok. Moer a mistura depois de assada num pó suave usando um liquidificador de cozinha. Depois de ter feito o podi (pó), e provado, podem ajustar-se os ingredientes para se adequar ao paladar de quem a vai tomar.

A fórmula deve ser armazenada num recipiente limpo e hermético. O podi pode durar alguns meses. Servir o podi com uma colher de chá de ghee e arroz cozido. Também pode ser adicionado ao caril e pratos de legumes salteados.

Para recomendações mais precisas em função da sua constituição, a nova mãe deverá consultar um terapeuta ou médico ayurvédico.

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Shirodhara | Uma das mais relaxantes terapias da Ayurveda

Shirodhara1O Shirodhara é uma das mais divinas e relaxantes terapias que se possa experimentar. O termo shirodhara é uma união de duas palavras: “Shir” que significa cabeça, e “dhara” que significa derramar um fluxo ou aspersão. O Shirodhara significa assim o derramamento de um remédio líquido num fluxo contínuo sobre a cabeça, por um período estipulado de tempo. É uma terapia indicada para todas as estações do ano e para os três doshas. Esta terapia corporal insólita tem um profundo impacto no sistema nervoso. Acalma direta e imediatamente a mente, relaxa, e tem um efeito de limpeza no sistema nervoso. É um tratamento exclusivo da Ayurveda, e no universo das medicinas alternativas talvez seja a única terapia corporal que tem um efeito no sistema nervoso semelhante à prática regular de meditação. Após esta terapia o paciente irradia frescura na pele, saúde, vitalidade e profundo bem-estar, mostrando um sorriso de serenidade.

Se considerarmos o corpo humano como uma árvore invertida, as raízes estão no topo e os galhos apontam para baixo. A cabeça do corpo humano será a raiz desta árvore. O dorso, o tórax e o abdómen, será o tronco dessa árvore. Os membros, superiores e inferiores, serão os ramos desta árvore. Assim como as raízes de uma árvore alimentam e controlam todas as atividades e o bem-estar da árvore, a cabeça é o centro operacional de todo o corpo, controlando a função do cérebro e da medula espinhal.

A cabeça tem muitos marmas ou pontos vitais, e é a casa da glândula endócrina principal, a pituitária. A testa contém uma das sedes do Vata (do Prana Vata em particular), e também abriga os subtipos de Kapha (tarpak kapha) e Pitta (sadhak pitta); considera-se que a sede do Sadhak Pitta, um subtipo do Pitta, é o hridaya que significa “coração”. Contudo, na Ayurveda, o hridaya engloba tanto o coração quanto o cérebro. Então a cabeça, que abriga o cérebro, também se torna uma sede de sadhak Pitta.

Através dos respectivos centros nervosos no cérebro, a cabeça também controla a sensação de audição, olfato, paladar e visão. Uma vez que as três bioenergias (ou doshas) estão representados na região da cabeça, qualquer desequilíbrio no dosha pode causar distúrbios nesses respectivos centros, com repercussões generalizadas em todo o corpo. Assim, o shirodhara, através do uso de vários meios como óleos, ghee e soro de leite, pacifica estas bioenergias e funciona indiretamente em todo o corpo. O Shirodhara traz força e resistência à região da cabeça para que todo o corpo funcione suavemente.

A terapia

3Sobre a testa ou ajna marma é vertido num fluxo contínuo óleo morno (ou outro líquido). Este tratamento é um tipo de procedimento “murdha taila“. Isso refere-se à aplicação de óleo na cabeça ou murdha. A pressão do fluxo do óleo na testa cria uma vibração, ao mesmo tempo que satura a testa e o couro cabeludo, penetrando suavemente no sistema nervoso. A vibração, a pressão suave e o calor reconfortante do óleo permitem que o corpo, a mente e o sistema nervoso experimentem um estado profundo de descanso, semelhante à meditação. A vibração produzida na terapia é amplificada pelo seio oco presente no osso frontal. A vibração é então transmitida para dentro através do meio fluido do líquido cefalorraquidiano. Esta vibração, juntamente com a temperatura, pode ativar as funções do tálamo e do cérebro anterior basal, que então leva a quantidade de serotonina e catecolamina ao estágio normal, trazendo a tranquilidade mental e induzindo o sono natural.

O Shirodhara é tradicionalmente feito como parte do processo de limpeza panchakarma usando-se um óleo especialmente preparado para o efeito. A aplicação de óleo pode ser feita de várias formas:

Shiro Abhyanga – Massajar a cabeça com óleos de ervas por um período fixo de tempo, geralmente de 20 a 40 minutos.

Shiro Seka/Shiro dhara – Um procedimento no qual os óleos vegetais ou líquidos medicinais como o leite ou leitelho são vertidos num fluxo sobre a cabeça do receptor por um período fixo de tempo, geralmente 20 minutos a 60 minutos.

Shiro Pichu – A aplicação de uma almofada de algodão embebida em óleo sobre a cabeça.

Shiro Basti (Vasti) – Este procedimento envolve uma represa construída sobre a cabeça de um paciente sentado. Um vaso de couro (ou outro material) é selado na cabeça com farinha de grão. É preenchido com óleos de ervas e mantido lá por um tempo estipulado.

Três tipos de Shirodhara

Óleos diferentes, misturas de óleos de ervas e ghee podem ser misturados e usados dependendo da experiência prática e sabedoria do praticante. No Sneha dhara usa-se óleo de ervas ou ghee. No Ksheer dhara usa-se leite infundido com ervas. No Takra dhara usa-se leitelho infundido com ervas adequadas. No Sneha Dhara: óleo Shirodhara.

Na predominância dos desequilíbrios de Vata ou Kapha, ou Vata Kapha, geralmente é utilizado óleo quente. Nas desordens de Vata pode ser usado óleo de Dhanwantram ou o óleo de Mahanarayana. Em caso de predomínio de Pitta ou desequilíbrios de Pitta, são utilizados óleos e outros líquidos frios (à temperatura ambiente). Nos distúrbios de Pitta, pode-se usar óleo quente como o óleo de Chandan Bala Lakshadi. Se o Pitta também é acompanhado pelo desequilíbrio do Vata, pode-se usar ghee de ervas quentes como o ghi Brahmi ou ghee saraswat pode ser usado para o shirodhara.

shirodhara-milkKsheer-dhara: Leite Shirodhara

Este é outro tipo de shirodhara em que o leite medicado ou o leite infundido com ervas é usado para o tratamento. É ritmicamente vertido na testa a partir de uma altura específica e durante um período de tempo específico, permitindo que o leite passe pelo couro cabeludo e pelo cabelo.

Takra-dhara: Leitelho Shirodhara

O Takra-dhara é um tipo de shirodhara em que takra ou leitelho infundido de ervas é derramado de uma altura específica e por um período de tempo específico continuamente e ritmicamente. O takra atravessa o couro cabeludo e entra no cabelo.

No procedimento o paciente fica deitado sobre uma marquesa ou droni (mesa de massagem tradicional da Ayurveda). Esta marquesa tem um desenho anatómico apropriado para escorrer o óleo de volta ao reservatório atrás da cabeça do paciente. A taça (reservatório de óleo pendurado acima da cabeça do paciente) deve estar a uma altura de 6 a 7 cm da cabeça. Ajusta-se a taça para que o fluxo caia exactamente sobre no meio da testa. O terapeuta prepara o óleo adequado ao paciente na quantidade de ½ a 1 litro de óleo medicado. Com um fogareiro, deve-se aquecer o óleo e em seguida despeja-lo dentro da taça. O fluxo do óleo deve ser contínuo e com temperatura pouco acima da temperatura do paciente, conforme o que também seja confortável para o mesmo. Antes de se acabar o óleo da taça, deve-se aquecer novamente e despejá-lo de volta. Repetir o procedimento até atingir o tempo necessário à terapia. Pergunta-se ao paciente se a temperatura do óleo está adequada, e procura-se regulá-la de acordo com a necessidade.

Pontualmente ao longo do tratamento, deve-se mover a taça em movimentos circulares, e cobrir com o fluxo toda a testa, movimento este que é bastante relaxante. Para finalizar puxa-se gentilmente a toalha que cobre os olhos em direcção à coroa (para se escorrer o óleo), e faz-se então uma massagem. Por fim, coloca-se uma toalha seca em torno da cabeça para secá-la. É aconselhável colocar-se uma touca ou um gorro após o tratamento, para evitar a sensação de frio que pode provocar o aumento do Vata.

Duração do Shirodhara

O Shirodhara pode ser feito por um período de 20 a 60 minutos, dependendo da natureza e gravidade do desequilíbrio do dosha ou dependendo da constituição do indivíduo ou Prakruti. A terapia é habitualmente realizada por um período de 7 a 14 dias ou conforme recomendado pelo praticante. O Shirodhara também pode ser feito por 7, 14, 21 ou 28 dias ou mais em casos crónicos. Geralmente, um pequeno intervalo de tempo é fornecido entre dois tratamentos e muitas vezes é descontinuado depois de três semanas.

O horário ideal para a realização do Shirodhara é geralmente nas primeiras horas da manhã, de preferência entre 6h e 10h. Em condições de Pitta alto, também pode ser feito à tarde.

Benefícios do Shirodhara

shirodhara-a.jpgO Shirodhara é um ótimo tratamento para o sistema nervoso comprometido. Pode também ajudar a aliviar os sintomas de ansiedade, stress, fadiga e hipertensão. Alivia a tensão, preocupação, medo e dor de cabeça, bem como a depressão. Regula o humor, estimula o Prana Vata, proporciona um relaxamento profundo, alivia a fadiga, revigora o corpo e a mente estimulando a memória cognitiva, e traz sentimentos de prazer e repouso.

O tratamento com o Shirodhara é recomendado para a prevenção de muitos distúrbios psicossomáticos. Num indivíduo saudável, o Shirodhara é um ótimo tratamento para manter e melhorar a saúde, a clareza, a calma e a imunidade, e prevenir doenças relacionadas com o corpo, a mente e os órgãos sensoriais.

Indicações Terapêuticas

O Shirodhara é indicado quando o paciente sofre de diabetes, úlceras, psoríase, doenças por distúrbios sexuais, fibromialgia, enxaqueca, pode ser associado ao tratamento de anemias e colite, pré-terapia Panchakarma, tratamento de beleza da pele e do cabelo, rugas, acne. Como Pós-Terapia para a quimio e radioterapias. No auxílio ao tratamento da Sida e como Rasayana (rejuvenescimento). Em particular em cada bioenergia:

Vata Problemas de natureza psicológica, falta de concentração, doenças do sistema nervoso, paralisias em geral, tremores, insónias, doenças psiquiátricas, manias, epilepsia, doenças psicossomáticas, todas as doenças da cabeça e órgãos dos sentidos, perda de cabelo, perda de audição, fadiga e exaustão mental, língua acinzentada, insónia, dores de cabeça, secura da face e do couro cabeludo, obstipação.

Pitta – Sensação de ardor na cabeça e no corpo, faringite, conjuntivite, excesso de suor, perda da visão, doenças no sangue, hemorragias, icterícia, herpes, língua amarelada, urina e fezes amareladas ou esverdeadas.

Kapha – Excesso de sono, peso no corpo, indigestão, muco em excesso, obesidade, digestão fraca, língua esbranquiçada, fezes e urina branca, perda de apetite, repulsa por comida.

O Shirodhara também pode ajudar nos seguintes desequilíbrios:

Transtorno de stress Pós-Traumático: o Shirodhara reduz o excesso de Vata, que é um fator primário neste transtorno.

Insónia e transtorno do trabalho por deslocamento do Sono: o Shirodhara é tradicionalmente conhecido pela sua capacidade de ajudar com problemas de sono. O processo do Shirodhara estimula a glândula pineal, que produz a melatonina, o regulador do ciclo vigília-sono. Acalma a mente inquieta e induz ao descanso. Se a insónia decorre do trabalho noturno e o ciclo vigília-sono estiver fora de sincronia com os ritmos naturais do sol, o shirodhara pode ajudar a remover a fadiga, restaurar a energia e restabelecer a harmonia nos doshas ou na constituição.

Jet lag: Quando as pessoas viajam muito, o seu ritmo de sono diário está muitas vezes fora de sincronia. O shirodhara pode ajudar a redefinir o padrão diário de acordar e deitar, bem como remover a fadiga acumulada. A pessoa pode levar consigo um óleo calmante Vata ou óleo de Bhringaraj e aplicar na cabeça antes de dormir, ou procurar um médico ayurvédico local para receber o tratamento.

Hipertensão: Raktagata Vata é um desequilíbrio do Vata que pode estar correlacionado com a hipertensão. O Shirodhara provou ser eficaz na redução da pressão arterial.

Dores de cabeça de vários tipos: como cefaleias, enxaquecas, dores de cabeça devidas à tensão, dor de cabeça originada nas têmporas, usando óleos vegetais ou leite infundido com ervas.

Contraindicações do Shirodhara

Shirodhara-Massage-in-Ayurveda-Itoozhi-AyurvedaO Shirodhara é adequado para qualquer dosha ou constituição, no entanto, existem algumas contraindicações. O Shirodhara não deve ser administrado a mulheres no terceiro trimestre da gravidez.

As contraindicações incluem tumor cerebral, lesão recente no pescoço, escoriações ou cortes na cabeça, doença aguda, náusea, vómito, fraqueza severa, exaustão, tontura, desmaios ou sudorese espontânea. O Shirodhara não deve ser feito em pacientes com erupção cutânea ou queimadura solar na testa ou no couro cabeludo, nem a pacientes alérgicos ao óleo usado.

Outras contra-indicações:

  • Febre de origem recente

  • Excesso de Kapha

  • Excesso Ama

  • Obesidade mórbida

  • Indigestão

  • Ascites

  • Edema

  • Condições tóxicas generalizadas, como septicemia

  • Qualquer doença aguda

  • Exaustão

  • Desidratação ou sede

  • Quando o fogo digestivo estiver muito alto ou muito baixo

  • Artrite reumatóide

  • Indigestão e anorexia

  • Enfermidades abdominais e do metabolismo

  • Amigdalites

  • Diarreia

  • Alcoolismo ou quando a pessoa estiver embriagada

Antes de realizar um tratamento Shirodhara o paciente deverá consultar um terapeuta ou médico ayurvédico para aferir o procedimento mais adequado, e qualquer contraindicação que possa existir.

Mimo e cuidados de Outono com a Ayurveda

Apesar de começarmos a termos de nos habituar à indefinição das estações do ano derivadas às alterações climáticas, alguma regularidade pode ainda ser observada, e naturalmente respeitada de forma a mantermo-nos em equilíbrio.

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A mudança do verão para o outono é um período chamado Ritu Sandhi na Ayurveda. Refere-se à lacuna entre as estações. Este é um momento delicado para a digestão, porque os doshas (humores) estão flutuantes e a capacidade digestiva pode também oscilar. Este tempo de flutuação proporciona uma oportunidade natural para uma limpeza de Outono. A Ayurveda sugere que façamos bom uso da tendência natural do corpo para se purificar.

O Outono é uma das estações do ano em que o Vata predomina. O Vata e o Outono compartilham as qualidades de movimento, mudança, secura, frio, luz, mutável, rápida e irregular.

No Outono começamos a ver mudanças no clima, algumas delas repentinas, que se refletem na beleza da mudança da cor das folhas das árvores. Começamos por sentir mais frio e há movimento no ar quando o vento frio começa a soprar. É a estação que agrava o Vata devido ao clima frio e ventoso. O Vata pode manifestar-se no nosso corpo e mente como: secura, ansiedade, preocupação, dor nas articulações, alterações nos nossos padrões digestivos, incluindo obstipação e até insónia.

As estações vão-se sucedendo independentes da nossa vontade, e a Ayurveda é provida da informação que nos permite lidar de forma harmoniosa com o nosso ambiente externo, e o eventual stresse que o acompanha, através de pequenos ajustes na nossa rotina diária.

 

A Alimentação no Outono

A energia do Vata é naturalmente criativa e também agitada. Tendo isso em conta é fundamental manter o Vata calmo e feliz. Idealmente devem-se evitar alimentos com as caraterísticas do Vata como bebidas frias e alimentos secos, ásperos, grosseiros, frios e crus. Deve adicionar-se mel aos alimentos e às bebidas, assim como voltar às ervas digestivas de aquecimento como os gengibre, cominhos, canela, cravinho-da-índia, manjericão, erva-doce e pimenta preta.

As sopas de vegetais e ensopados são perfeitos para esta época do ano, assim como o ghee e alimentos quentes, e com os sabores picante, ácido e doce. A abóbora é um alimento muito típico da estação e muito adequado para nutrir o Vata, assim como vários tubérculos como a batata-doce, a beterraba e a cenoura, que facilitam o processo de ‘enraizamento’ da leve energia do Vata.

Idealmente as bebidas devem ser quentes como água quente, infusão de gengibre (usar gengibre fresco) ou de outras ervas, como erva-doce, cominhos e tomilho.

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Alimentos preferenciais de Outono

Lacticínios | todos

Adoçantes | Açúcar-de-cana, mel, melaço

Óleos | Todos com moderação

Cereais | Arroz basmati, arroz integral pequeno, trigo, aveia, cuscuz, centeio

Leguminosas | Feijão Mung, tofu, lentilhas

Frutos | Abacates, papaias, uvas, laranjas, cerejas, ameixas, melões, morangos, ananás, framboesas, mangas, bananas, figo, pêssegos, laranjas, azeitonas, limas, limões

Vegetais | Batata-doce, Inhame, agriões, cenouras, batatas, beringelas, ervilhas, beterraba, espargos, feijão verde, tomates, quiabo, nabos, abóboras, pimentos

Nozes/sementes | Todas com moderação

Condimentos/ervas | Gengibre, canela, cominhos, coentros, rábano bravo, assa-fétida, funcho, pimenta preta, sal marinho, noz-moscada, açafrão-da-índia, basílico, alho, fenacho, cravinho-da-índia

Bebidas | Leite quente, água quente, sumos de fruta, infusões

Produtos animais | Frango, peru, peixe, ovos

 

Rotina Diária adequada ao Outono

O Vata dosha desequilibra-se quando a rotina diária é irregular. É fundamental termos o cuidado de descansar bastante e manter uma rotina regular.

Massagem com Óleo Quente

Abhyanga: Aqueça um pouco de óleo orgânico de boa qualidade e faça uma pequena automassagem todos os dias. Esta prática ayurvédica diária nutre e cultiva uma pele bonita e também acalma o Vata. Tradicionalmente, é usado o óleo de sésamo, que contém propriedades antioxidantes, é amornante e um pouco pesado. Para além do óleo de sésamo, existem outros óleos vegetais adequados como o óleo de brahmi (sobretudo para a cabeça), o óleo de mostarda, e eventualmente até o óleo de amêndoas doces. Idealmente o óleo deve ficar na pele por duas horas para ser bem absorvido. Opcionalmente um banho de vapor ajuda na dilatação dos poros e absorção profunda dos benefícios do óleo usado. Tomar um banho quente após a massagem para lavar o óleo do corpo.

Movimento

Dança, Ioga, Caminhadas, e Chi Kung são alguns dos exercícios mais adequados para esta estação.

Respiração

Tire um tempo todos os dias para exercícios de Pranayama. Comece o dia com algumas repetições de respiração consciente completa. Inspire e expire a sua Intenção para o dia.

Desintoxicação | Panchakarma

Uma dieta purificadora fácil de digerir é recomendada durante o período de transição da estação e como preparação para o Panchakarma. São de evitar certos alimentos como carnes, sobras e alimentos processados já que são mais difíceis de digerir durante este período.

Dhal, arroz e legumes cozidos são adequados para uma limpeza de outono. Suplementar a dieta com Triphala, a fórmula tradicional de digestão ayurvédica, é uma forma prática de manter a digestão forte e uma eliminação regular.

O outono é um ótimo momento para receber Panchakarma, a tradicional limpeza Ayurveda. O Panchakarma pode ser feito numa clínica com um praticante ayurvédico qualificado, ou pode ser feito em casa, sob a orientação de um profissional qualificado. A terapia Panchakarma recomendada no Outono é o Basti – Oleação interna do cólon.

Fitoterapia

A Neem é uma planta famosa usada há séculos na Índia para tornar a pele mais radiante. O chá de neem é um tónico, e planta é também usada para limpar os dentes, e como um repelente natural de insetos. Embora nada possa substituir a experiência profunda e purificadora do Panchakarma, a Neem ajuda bastante no processo de desintoxicação. A sua ingestão deve orientada e seguida por um médico ou terapeuta ayurvédico habilitado.

 

Ventos em mudança: como afetam eles as Bioenergias

O vento é frequentemente caracterizado pelo Vata-dosha na Ayurveda, sendo ele próprio composto de akasha (espaço / éter) e vayu (vento / ar). Os vários tipos de vento são conhecidos geralmente por agravarem o vata, devido à natureza subtil do vento.

Os três humores biológicos em Ayurveda ou doshas são Vata-dosha, Pitta-dosha (composto de agni ou fogo e jala ou água) e Kapha-dosha (composto de jala ou água e prithivi ou terra). Destes, Vata, o humor do vento, é o mais subtil; Pitta, o fogo é o humor bilioso, sendo o seguinte mais subtil; e Kapha, o humor de água e fleuma, é o mais denso.

Na Ayurveda as várias mudanças do nosso ambiente natural – tão simples quanto as direções do vento – podem criar várias questões relacionadas com agravamento dessas bioenergias. Se formos dar um passeio ao vento, o Vata irá agravar, especialmente no outono e nas estações mais secas. Podemos também procurar perceber em que direção o vento sopra, o que também nos dá indicações de como as bioenergias podem ser agravadas.

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Ventos Orientais

Diz-se que o vento que sopra principalmente do Oriente é pesado e untuoso e tem um sabor doce e salgado. Assim, agrava o Kapha-dosha, que compartilha dessas propriedades, e o Pitta-dosha e o rakta (sangue), devido ao sabor salgado. Também agrava aqueles que sofrem de problemas como envenenamento, úlceras e ferimentos devido a acidentes, e causa sensações de ardor. Contudo, estes ventos orientais aliviam a fadiga e o inchaço, e reduzem o Vata.

Ventos do Sul

Diz-se que o vento que sopra primariamente da direção sul é leve em propriedade e doce, aliviando o Pitta-Dosha e o sangue, sem agravar o Vata. Ajuda a promover a força no corpo, e ajuda a visão, que está relacionada com o Pitta. Também pode aliviar o sangramento, devido à sua propriedade doce, que tem uma natureza redutora e refrescante de Pitta (shita-virya).

Ventos Ocidentais

O vento que sopra principalmente do oeste pode aliviar fortemente o Kapha-dosha, mas devido à sua natureza também afiada, seca, áspera e leve pode causar emagrecimento e reduzir a força (especialmente em tipos Vata). Reduz o tecido adiposo (devido à sua natureza seca), e diminui a untuosidade observada nos tipos Kapha, especialmente reduzindo o congestionamento e a fleuma.

Ventos do Norte

Diz-se que o vento que sopra principalmente da direção norte mantém as três Bioenergias em equilíbrio, e tem uma natureza untuosa, suave e pegajosa, com gostos doces e adstringentes. Para pessoas saudáveis, diz-se que promove a força e é útil em casos de emaciação devido à tuberculose e envenenamento. Quando o corpo acumulou toxinas, no entanto, pode agravar os doshas devido à sua natureza húmida.

Os Ventos e as Bioenergias

Naturalmente, devido aos vários climas ao redor do globo, existem variações, e podem haver efeitos contrários. No entanto, o fundamental é que vários tipos de vento agravam os doshas de diferentes maneiras, e podem ser usados ​​para reduzir outros doshas.

Podemos avaliar as várias propriedades ou gunas dos ventos que sopram ao nosso redor e, assim, entender como agravam os doshas, e quais os ventos predominantes.

Como exemplo, as comunidades costeiras ao longo das costas orientais sentirão uma forte e fresca brisa marítima proveniente dos ventos de Páscoa que provocarão os doshas – especialmente Vata e Kapha – devido às suas naturezas mais frias, apesar de outras propriedades. Nas estações de outono-inverno nessas regiões, é melhor que as pessoas – especialmente as constituições Vata e Kapha – evitem sair para passear quando esses ventos sopram, pois podem ser fatores causadores de doenças.

Vários ventos podem também afetar os nossos estados mentais pelas suas qualidades e propriedades. Ventos frios em dias nublados podem nos fazer sentir letárgicos, sem energia e deprimidos, devido à sua natureza mais escura (tamásicas), mais pesada e mais fria. Os ventos mais quentes têm uma natureza de secura, mas às vezes podem afetar uma pessoa pelas suas naturezas direcionais secundárias.

Na Ayurveda as diferentes propriedades do vento estão intimamente conectadas com desha (localização) e rtu (estação), e podem afetar as pessoas de forma diferente, baseadas na constituição biológica básica de uma pessoa (prakriti), quaisquer desvios temporais dela (vikriti), a sua idade ( estágio de vida), e sexo (por exemplo, as mulheres são mais propensas a serem agravadas por ventos). Com as mudanças planetárias, esses efeitos subtis apresentam um exemplo de outro nível mais profundo na Ayurveda, no qual várias doenças podem ser criadas pela viciação dos doshas ou pela redução dos seus efeitos pelos vários efeitos e qualidades da natureza ao nosso redor, como o vento.

Podemos começar a examinar essas propriedades ou qualidades (gunas) dos ventos ao nosso redor, nos nossos climas e locais para começarmos a avaliar os efeitos que eles têm na nossa bioenergia.

12 Inspirações para um Despertar Ayurvédico

Independentemente do ritmo que a vida atual nos impõe, a Natureza, e o nosso corpo – que é a Natureza a vibrar em nós – tem um ritmo próprio. Existem ciclos corporais naturais de metabolização de alimentos, emoções, pensamentos, toxinas; existem ritmos de sono, ritmos de fecundação, até o ritmo do nosso pulso altera-se de acordo com a hora, o momento do dia, a estação do ano, e contudo sempre em sintonia com o pulsar da Mãe Terra. Muitos dos desequilíbrios surgem precisamente pela inexistência de ritmo, e por uma desatenção instalada em relação ao pulsar da Vida no nosso corpo. Quando estamos dessincronizados adquirimos outro ritmo de vida, que entra em resistência com o pulsar da Terra. Dormir demasiado tarde, ou durante o dia. Comer fora do horário das refeições. Falhar a hora ideal para evacuar, e/ou conter a urina. Estes são alguns dos exemplos de como podemos facilmente desequilibrar-nos.

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1 | A hora de despertar

Com a primeira Luz do amanhecer, cerca de noventa minutos antes que o sol surja no horizonte oriental, ocorre uma grande onda de energia no planeta. As criaturas adormecidas despertam e sacodem dos seus organismos os vestígios da inércia, preparando-se para as actividades do dia. E, então meia hora antes do amanhecer uma segunda onda de energia ainda mais poderosa, corre pela atmosfera. Com esse segundo influxo de radiação, vem o momento mais importante do dia – o momento em que a química corporal é estabelecida para todos os seres vivos. O ser humano é também afectado por esse influxo. Nesse momento o sangue é diluído e banhado por novas substâncias químicas, as quais se exaurem gradualmente, até serem restauradas no amanhecer seguinte.

O banho do organismo com a nova energia ocorre dez minutos antes do amanhecer, estejamos ou não conscientemente preparados e despertos. As reacções químicas acontecem de modo mais adequado em recipientes limpos e livres de impurezas. A lógica diz-nos que uma reacção que ocorra num recipiente livre de resíduos produzirá resultados bem melhores do que uma reacção num recipiente impuro. Se uma pessoa está a dormir quando amanhece os gases e resíduos acumulados durante a noite estarão presentes durante o estabelecimento da química do sangue.

É da maior importância evitar ingerir qualquer alimento ou bebida nas horas que precedem o amanhecer. A manhã é um período em que devemos manter reduzida e tranquila a nossa velocidade.

Em resumo, é benéfico acordarmos antes que o Sol se levante, porque existem qualidades amorosas (sattvicas) na Natureza, que trazem paz mental e frescura aos sentidos. O nascer do Sol varia de acordo com as Estações, mas em média as pessoas de constituição Vata deveriam acordar por volta das 6 horas da manhã, as Pitta pelas 5h 30m da manhã, e os Kapha por voltas das 4h 30m da manhã. Logo após o despertar, é adequado conectarmos a nossa energia à da Terra, enraizando-nos, e fazermos algumas respirações profundas, colocando a intenção para o nosso dia.

2 | Limpar a noite do nosso rosto

Durante o sono a temperatura da pele sobe. Os cobertores mantêm a temperatura cutânea consideravelmente acima da temperatura ambiente. A lavagem reajusta o organismo às condições do ambiente e previne o tipo de choque provocado pela súbita mudança de temperatura que ocorre quando a pessoa salta da cama.

O rosto, em particular os olhos, devem ser lavados com água fria e refrescante, numa temperatura um pouco abaixo da ambiente, e deveríamos atirar a água ao rosto pelo menos sete vezes. Isto ativa o reflexo do mergulho, ativando também a nossa atenção. O rosto deve ser limpo como uma totalidade, pois a limpeza parcial pode criar problemas, devido à diferença de temperatura e condutibilidade eléctrica entre a parte limpa e a não limpa. Essas diferenças podem provocar um desequilíbrio na energia, afectando a visão, o olfacto, a audição e o paladar.

No corpo, os olhos representam o elemento fogo. Eles só funcionam quando estimulados pela luz. A água é o combustível do fogo. O que permanece após a extinção do fogo é a cinza ressecada, porque a água evaporou. A água conduz o calor e a energia eléctrica do fogo. Assim, quando se lavam os olhos, a pequena quantidade de força aplicada pelas mãos carrega electricamente a água – estimulando e acalmando os olhos e os nervos ópticos (os quais são extensões directas do cérebro). O acto de lavar os olhos deve ser acompanhado com bochechos, com água à mesma temperatura.

 

3 | Raspar a língua

raspadorAntes mesmo de bebermos água, a Ayurveda recomenda que raspemos a língua.

Durante a noite as toxinas (ama – alimentos não digeridos no trato digestivo ) a serem expelidas pelo organismo vão-se dirigindo para diversos pontos de saída. A língua é um deles. Torna-se por isso necessário elaborar-se uma higiene diária da língua, de forma a remover-se essa película de toxinas acumuladas sobre ela, sobre tudo antes da ingestão de qualquer alimento. Esta acção vai permitir uma acentuada clareza do sentido do paladar, para além de evitar que voltemos a ingerir a ama acumulada.

A língua é um órgão muito sensível e contém na sua superfície um mapa dos órgãos do corpo, podendo nós através da sua observação, fazer uma pequena análise do nosso estado de saúde. São de notar as zonas onde existe maior acumulação de ama. Podem surgir capas na língua de diversas cores associados a diferentes tipos de desequilíbrio. Um monte de revestimento branco pode sugerir Candidas.

Raspadores de língua de plástico e metal estão disponíveis na maioria das lojas de saúde. Raspe de trás para frente suavemente até que tenha raspado toda a superfície, entre 7 a 14 vezes, e lave o raspador de cada vez. Esta acção estimula os órgãos internos, ajuda na digestão e remove a ama (toxinas).

4 | Beba água morna de manhã

Após as lavagens beba um copo com água à temperatura ambiente (no Verão), e água morna (no resto do ano). Isto lava o sistema digestivo, inunda os rins, e estimula a peristáltica. Começar o dia com café ou chá é desaconselhável, já que estas bebidas drenam a energia dos rins, causam a obstipação e formam maus hábitos. À água morna podem ser adicionadas algumas gotas de limão de modo a fomentar uma limpeza mais profunda do trato intestinal.

5 | Evacuação

toiletstool3Após a ingestão da água o organismo fica estimulado para a expulsão dos detritos acumulados durante a noite. Em circunstância alguma, a pessoa deve passar demasiado tempo sentada a evacuar, pois isso pode interferir com os gases do cólon, resultando numa profusão de enfermidades leves ou graves. Muitas pessoas lêem ou estão no telemóvel, enquanto estão sentadas à espera que os intestinos funcionem. Esse é um hábito potencialmente desequilibrante. Todo o tipo de distração é inadequada nesse momento por duas razões importantes: primeiro, a energia é necessária nos intestinos e a leitura desvia-a para a cabeça; segundo, a leitura encoraja a pessoa a ficar sentada durante longos períodos, numa postura que pode causar-lhe muitas enfermidades.

A maioria das queixas relacionadas com os intestinos podem ser eliminadas, bastando que a pessoa adopte uma postura adequada à defecação. A invenção da sanita moderna trouxe uma era de imenso sofrimento humano, desde a obstipação até distúrbios intestinais correlatos. Hoje em dia, a pessoa é forçada a sentar-se numa posição não natural, que exige que a força seja aplicada de um modo muito inadequado. A prática da boa saúde prescreve que a defecação seja feita na única posição natural: agachado ou de cócoras. Esta postura abre completamente o ânus, sem necessidade de se aplicar força. Para ajudar na aquisição desta postura, pode-se usar um pequeno banco junto a sanita de forma a colocar o intestino na posição certa para a expulsão.

A importância de um funcionamento ordenado e regular dos intestinos, logo após o despertar é fulcral, já que nenhuma meditação, nenhuma concentração, nenhuma actividade física e nenhuma ingestão de bebida ou comida devem ser feitas antes da defecação.

6 | Gargarejos de Óleo (Oil Pulling)

Oil-PullingGargarejar ajuda a fortalecer os dentes, as gengivas e os maxilares, para melhorar a voz e remover as rugas das bochechas. O gargarejo deve ser feito com o estômago vazio, quando o corpo ainda está no seu modo natural de desintoxicação. Deve-se fazê-lo por 4 a 15 minutos, com uma decocção adequada, ou até mesmo com óleo de girassol, de coco, de sésamo; mantenha o óleo na boca, bocheche vigorosamente, depois cuspa e massaje as gengivas suavemente. Por fim deve-se bochechar com água morna para limpar. Durante o processo é necessário imaginar que o óleo ou a decocção fica impregnada com as bactérias que vão depois ser expelidas. O gargarejo deve ser feito também à noite e depois de todas as refeições. Os benefícios dos gargarejos são vários:

  • Reduz a doenças da gengiva e inflamação

  • Reduz a secura na boca e pele

  • Elimina o mau hálito

  • Melhora os Sentidos

  • Aumenta a clareza

  • Revigora a Mente

  • Reduz o Esgotamento

  • Ajusta desequilíbrios da anorexia e do kapha

  • Acalma a dor de garganta

Depois do gargarejo, lave a boca com água morna e, opcionalmente, um pouco de sal grosso. Lave então os dentes para uma boca saudável e fresca. Use uma pasta de dentes natural, livre de flúor. A Ayurveda recomenda cremes dentais que usem ervas como o neem, o alcaçuz, o cravinho da índia.

 

7 | Limpeza nasal (Jala Neti)

Limpar o nariz deveria ser entendido como limpar a testa a partir de dentro. Inalamos uma infinidade de substâncias químicas que são entendidas por nós como cheiros. Essas substâncias químicas alojam-se no nariz e nas cavidades nasais. Por isso, a limpeza do nariz compreende muitas funções e deveria ser incluída como parte da limpeza diária.

TwoNetisEsta limpeza de ser feita primeiro com a ajuda de um neti pot. Água morna com uma pitada de sal marinho deve ser escorrida pelas narinas para lavá-las. De seguida pode-se colocar duas a cinco gotas de ghee ou óleo de mostarda, sésamo, azeite em cada narina, e deixe permanecer por um minuto. Este processo ajuda a lubrificar o nariz, limpa os sinus, melhora a voz, a visão e proporciona a clareza mental. O nosso nariz é a porta do cérebro, por isso estas gotas nutrem a entrada de Prana e trazem a inteligência.

Para Vata: óleo de sésamo, ghee ou óleo de cálamo.

Para Pitta: ghee com brahmi, óleo de coco ou de girassol.

Para Kapha: óleo de cálamo

 

8 | Lubrificando o corpo – Abhyanga

Poucas práticas diárias oferecem tantos benefícios. Quando feita de acordo com as leis naturais da anatomia humana e do fluxo de energia, a massagem diária energiza e faz vibrar simultaneamente a pele, os músculos e os nervos. O calor e a vitalidade do corpo aumentam à medida que o coração e o sistema circulatório começam a fornecer oxigénio puro e energia vital a todas as partes do organismo – ao mesmo tempo que lavam os gases e as substâncias químicas. A automassagem regular, quando executada adequadamente, ajuda o corpo a ficar leve, activo e enérgico, e impede o desenvolvimento da maioria das doenças de pele. Para além destes benefícios, ela também aumenta a inteligência, a presença de espírito, o vigor, a vitalidade sexual, a autoconfiança e a beleza.

Shiva_MassageDe todas as práticas de massagem, as que envolvem o uso de óleo são as mais benéficas, porque o óleo suaviza a pele, lubrifica-a evitando o atrito, distribui uniformemente o calor e garante uma camada de protecção, força e resistência contra os extremos da temperatura ambiente. O óleo impede a secura da pele, aumenta a flexibilidade e evita muitos dos efeitos do envelhecimento precoce.

Aplique óleo morno na cabeça e no corpo. Uma massagem suave com óleo pode trazer a felicidade, e previne tanto as dores de cabeça, como a calvície, os cabelos grisalhos, e o recuar da linha dos cabelos. Olear o corpo antes do deitar promoverá um sono profundo e mantém a pele macia.

Para Vata use óleo de sésamo morno. Para Pitta use óleo de coco ou de girassol morno. Para Kapha use óleo de girassol ou mostarda morno. O óleo de Brahmi é também muito usado, sobretudo para massajar a cabeça. Conhecido por ajudar a estimular o cérebro e trazer mais clareza mental. Pode-se adicionar alguns óleos aromáticos, de acordo com o seu dosha. Para equilibrar vata use gengibre, cardamomo ou laranja; pitta prefere os aromas frescos e doces de sândalo ou lavanda; Os kaphas respondem melhor ao eucalipto, alecrim ou sálvia.

As pessoas que estão com febre não devem ser massajadas, nem as que estão acometidas com constipação, vómitos ou indigestão. Quem tomou purgativos ou praticou um Basti e Vamana também deveriam evitar a massagem. É contra-indicado quando existem problemas de excesso de Kapha (mucos).

 

9 | Esfoliação

dryBrushing_body.jpgPode ser feita com a pele seca, mas também se pode aproveitar a pele ainda oleada para diminuir um pouco o atrito que provoca. A esfoliação é excelente para ativar a circulação e estimular o sistema linfático. Os movimentos devem ser leves e circulares, sem muita pressão já que a linfa está muito próxima da superfície da pele. Use uma escova de materiais naturais, e massaje em direção ao coração, começando pelas pernas, tronco, braços, muito levemente no rosto e depois nas costas. A esfoliação da pele é ótima para a desintoxicação do corpo.

 

10 | Hora do banho

Depois de oleados, um banho ou duche de manhã é ótimo para ajudar a reduzir a fadiga. As constituições Pitta se beneficiam da água fria, enquanto a água morna é ideal para os Vatas, e mesmo as temperaturas mais quentes são as melhores para equilibrar os Kaphas de boa índole. O banho diário purifica a mente e o corpo, aumenta o sémen, promove a longevidade, alivia a fadiga, detém a transpiração, aumenta a força, proporciona o brilho vital da saúde, remove o sono, o suor e a fadiga, dissipa a irritação, e aplaca sede crónica. Bom para todos os órgãos motores e órgãos sensoriais, o banho purifica os nervos, cura a sonolência, dissolve a tristeza, aumenta o entusiasmo, fornece energia vital ao sistema e traz clareza à mente.

Apesar de muito benéfico, tomar banho mais de duas vezes por dia deve ser evitado, pois isso sobrecarrega o organismo. Do mesmo modo, deve evitar-se o banho com água muito quente ou muito fria. Os banhos com água fria aumentam a quantidade de frio nos nervos e podem acarretar vários tipos de dor muscular. O calor do banho quente expande os músculos, tornando-os gradualmente frouxos e flácidos. Os efeitos dessas duas práticas talvez não sejam sentidos na juventude, mas se continuadas irão manifestar-se mais tarde sob a forma de fraqueza, cãibras, problemas renais e deficiência de sémen. A água do banho deve ser, em geral, quente, excepto para a cabeça e olhos. É contra-indicado quando existe paralisia facial, indigestão, diarreia, febre, infecções no ouvido, obstipação, sinusite, doenças dos olhos e doenças que afectam a boca e os ouvidos, e outras relacionadas.

Lembre-se de que a pele absorve tudo o que se coloca nela. É por isso fundamental escolher produtos de higiene que diminuam a toxicidade do corpo, evitando produtos cheios de perfumes e produtos químicos sintéticos. Isso inclui parabenos e SLS.

 

11 | Alongar e Respirar

rituais tibetanosExercício regular, especialmente o yoga, melhora a circulação, a força e a endurance. Ajuda a relaxar e ter um sono repousante, e melhora a digestão e a eliminação. O exercício diário deve ser feito até metade da nossa capacidade (que até se formar suor na testa, nas axilas e nas costas), geralmente durante 10, ou no máximo 15 minutos diários.

Vata: 12 vezes a saudação ao Sol, feitas devagar; levantar de pernas; camelo; cobra; gato; vaca. Todos feitos devagar e suavemente.

Pitta: 16 vezes a saudação à Lua, moderadamente rápidas; levantar de pernas; peixe, barco; arco. Exercício de relaxamento.

Kapha: 12 vezes a saudação ao Sol, feitas rapidamente; ponte; pavão; palmeira; leão. Exercício vigoroso.

Outra opção é realizar os Cinco Rituais Tibetanos. Uma sequência que se adapta às várias constituições.

12 | Meditar

Os momentos mais preciosos da vida de uma pessoa vão desde o instante em que ela completa a limpeza matinal até os minutos seguintes ao raiar do novo dia. Purificado por dentro e por fora, o sistema orgânico converte-se num estado “em branco”. Quem usa com sabedoria esses momentos consegue construir um campo de energia capaz de funcionar como um bom escudo para as aventuras do dia a dia.

meditaçãoA meditação é uma forma de trabalhar conscientemente a fim de elevar o nível do nosso ser, através da elevação do nível de energia presente no interior da nossa mente. Devemos começar a perceber o mundo sem apegos, sem juízos de valor, sem desejos. E para alcançar esse estado, a energia do organismo precisa primeiro focar-se num único ponto. Esse estado de concentração é o precursor necessário da própria meditação.

Para ser mais eficaz, a meditação deve ser praticada diariamente a uma hora regular. As melhores horas para praticar são aquelas que sincronizam a vida quotidiana com os ciclos maiores do planeta e do cosmos. As condições do planeta mudam dramaticamente nas horas do amanhecer e entardecer. Essa mudança, que começa cerca de trinta minutos antes de o sol tocar o horizonte e que dura uma hora, também produz mudanças acentuadas na química do sangue. Além disso, no momento exacto em que o sol toca o horizonte, o organismo respira automaticamente por ambas as narinas ao mesmo tempo. Esse é o estado em que a energia consegue subir pelo canal central da coluna vertebral, o Sushumna, até ao cérebro. Durante esse instante a química do corpo é equilibrada. Como as duas narinas estão a trabalhar, a temperatura do ar nas cavidades nasais é igualada. O metabolismo estabiliza e a temperatura de ambos os hemisférios cerebrais é equilibra-se, permitindo-lhes funcionar em sincronia. O meditador deveria sempre estar atento a esses ciclos planetários e às mudanças no organismo.

É importante meditar-se de manhã e à noite por, pelo menos, 15 minutos. Medite na forma como está habituado, ou experimente a meditação de “esvaziar a taça”. A meditação traz paz e equilíbrio na vida.