Ayurveda e a Intimidade | Orientações para uma vida sexual equilibrada

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Falar de Saúde íntima é ainda um desafio na nossa cultura. Nas culturas ancestrais era, contudo, fundamental para que a harmonia reinasse entre os pares. A Ayurveda, como linguagem de sabedoria, desde há milhares de anos que faculta informação e fomenta o nosso autoconhecimento ao nível da intimidade, tanto ao nível físico, como também ao nível emocional, mental e espiritual. Profundamente integrado no estilo de vida ayurvédico está o conceito da gestão da vida sexual como forma de manutenção da saúde e longevidade. A aplicação desta profunda e valiosa arte do saber resulta na fundação de relações saudáveis e felizes.

O contexto da saúde sexual pode ser, hoje em dia, um assunto sensível e confuso. Muito embora muitos dos media partilhem conteúdos muito explicitamente sexuais, e a sexualidade na internet seja um problema crescente, sobretudo em termos da educação sexual e da utilização da pornografia por jovens e adolescentes, todos esses assuntos carecem da profundidade e da real intimidade que é necessária para o nosso equilíbrio íntimo e relacional. A Medicina Ayurvédica contextualiza a sexualidade e a intimidade como fatores naturais, e como parte essencial da vida do indivíduo.

A Ayurveda analisa a totalidade da vida do indivíduo com cuidado e define claramente as fases da vida.

Os Quatro Objetivos da Vida

Na visão dos Vedas todas as nossas atividades estão alinhadas com os quatro objetivos.

Dharma – é o alinhamento interior com o que é correto segundo as Leis universais da Natureza, e é parte de todas as Sociedades, tradições, religiões, tal como é parte de cada ser humano. As atividades praticadas no dharma são oportunidades para o indivíduo servir a sua comunidade, e preservar o ecossistema do universo.

Artha – é a natural procura por riqueza. Esta categoria de atividade refere-se ao trabalho que produz rendimento ao indivíduo e à sua família. Ganhar pela vida é considerado um dos objetivos da vida.

Kama – é a natural procura por prazer na vida. Refere-se às atividades realizadas para satisfazer os sentidos da pessoa. Estas incluem comer, beber e outras experiências sensuais e prazerosas. O objetivo final do Kama é procriar e manter a espécie.

Moksha – é a liberdade absoluta, a salvação, ou a libertação de todas as atividades de artha, kama, e até mesmo de dharma. Esta categoria de atividades diz respeito à busca do desenvolvimento espiritual e da transcendência do mundo material. O objetivo é praticar o não-apego e permitir à pessoa entregar-se ao Universo ou ao Criador. Este é o objetivo mais importante da vida para aqueles atraídos pela filosofia espiritual das culturas orientais.

Os quatro objetivos da vida são continuados pelo indivíduo ao longo da vida. No entanto, cada fase da vida tem um foco único. A vida do indivíduo é dividida nas quatro seguintes fases:

Brahmacharya – Esta fase dura desde o nascimento até a idade de 25 anos. Este é considerado um tempo para o aprendizado, bem como para o desenvolvimento pessoal e espiritual. A maioria das pessoas conclui a sua educação até os 25 anos de idade, começa a sua carreira e até mesmo inicia uma família.

Grihasta – A segunda fase da vida dura de 26 a 50 anos. Este é considerado um momento para crescer na carreira, aplicando todos os recursos académicos, pessoais e espirituais no trabalho. É também nesta fase que as pessoas começam a vida familiar, relacionando-se e comprometendo-se com um ente querido, começando uma família, tendo filhos e amadurecendo.

Vanaprastha – A terceira fase da vida varia de 51 a 75 anos de idade. Nesta fase, a pessoa é convidada a abraçar o dom do presbiterado e da liderança. Compartilha livremente o seu conhecimento, experiência e sabedoria reunidos ao longo da vida. Durante esses anos, muitas das pessoas tornam-se avós e têm a oportunidade de compartilhar os seus dons com as gerações mais jovens, ajudando-os a aprender com as suas experiências.

Sanyasa – A fase final é descrita como durando dos 76 até a morte. Esta é a fase da vida mais espiritualmente focada, onde a pessoa desiste das atividades mundanas para dedicar a vida à transcendência espiritual ou moksha.

Na nossa Sociedade atual a esperança média de vida aumentou, razão pela qual os adultos mais velhos são sexualmente ativos por mais tempo. A grande maioria das pessoas, entre 50 e 75 anos, continuam sexualmente ativos, e alguns permanecem ativos entre as idades de 75 a 85 anos. Adaptar os princípios de equilíbrio ensinados pela Ayurveda à nossa vida atual é essencial para otimizar as experiências sexuais, a intimidade, a saúde e a vitalidade.

 

Vakjikarana Tantra – Afrodisíacos e Medicina Reprodutiva

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Vajikaran Tantra é o ramo terapêutico da medicina Ayurvédica dedicado à saúde íntima, e que visa tornar o ser humano suficientemente apto para produzir uma descendência saudável e feliz, no intuito de contribuir com a sua genealogia, para a criação de uma sociedade melhor. Os conteúdos do Vajikarana contêm dissertações sobre os procedimentos que o ser humano deve realizar para que consiga chegar a um nível supremo de elevação física, energética e espiritual a nível sexual. É uma prática considerada purificadora e espiritualizante, e uma forma de compreensão libertadora, que desobstrói as muitas formas de manifestação do desejo, sejam elas sexuais ou não. Por outras palavras, trata-se de uma prática que conduz à liberdade, ao Nirvana.

O Stree (o ser feminino) é o maior de todos os Dravya vajikaran como disse Charak. Antes do vajikaran, é essencial realizar-se uma terapia Panchakarma (as Cinco Ações de Purificação profunda). O Vajikaran é bom para a saúde e também influencia a saúde mental e a psique (mente), que é considerada a origem do impulso para o desejo sexual.

No intuito de se criar uma boa relação é fundamental conhecer-se e trabalhar-se com os Doshas de cada elemento do casal, já que ajuda a compreenderem-se mutuamente, a perceber qual a abordagem do parceiro perante a vida e a educação dos filhos. Após se ter encontrado o parceiro, deve-se colocar a atenção no equilíbrio da relação. Quando o propósito é a concepção, o ideal é começar os cuidados sugeridos pelo Vajikarana Tantra, pelo menos 3 a 4 meses antes de conceber, a tentar manter uma mente calma, relações equilibradas e uma dieta saudável.

 

Os Dhatus (Tecidos corporais) e o seu papel na Sexualidade

Todos os tecidos do corpo humano são desenvolvidos a partir dos alimentos que são ingeridos pelo indivíduo. A nutrição vem através de três formas principais: alimentos, respiração e pensamentos. A pureza e o equilíbrio nessas três formas de nutrição tornam-se a base da pureza e do equilíbrio dos tecidos no indivíduo. À medida que os tecidos do corpo são desenvolvidos, o shukra ou os fluidos sexuais são os últimos a serem refinados.

O Shukra dhatu ou tecido sexual é considerado um tesouro fisiológico de energia, a nossa semente, o nosso elixir, subtilizado através dos processos alquímicos do corpo, e que contém a capacidade de dar Vida ou de regenerá-la. O seu uso adequado pode promover a saúde e a evolução espiritual. O uso desequilibrado do shukra pode levar à fraqueza e à doença. Uma metáfora para a função de shukra é compará-lo a uma taça. À medida que a taça enche, a nossa reserva de energia sexual cresce, dando-nos uma sensação de vitalidade e virilidade. À medida que o copo cheio de shukra transborda, esta energia fica ainda mais refinada para criar o ojas – o brilho da aura, a compleição.

Mais refinado que o shukra dhatu físico, o ojas alimenta o corpo subtil, fortalecendo a imunidade e a vitalidade do indivíduo. O ojas representa a capacidade restaurativa ou autocura do corpo. Um ojas saudável indica o equilíbrio perfeito do corpo, mente e espírito, onde o corpo alcança a homeostase fisiológica e o biorritmo equilibrado. O ojas está também associado à resiliência e suscetibilidade do indivíduo a doenças.

A atividade sexual excessiva e inapropriada provoca a depleção do shukra e do ojas. A Ayurveda aconselha o desenvolvimento da gestão cuidadosa da sexualidade, e considera a união sexual como uma experiência sagrada de expansão de consciência, que abre o coração para o amor próprio, e para o amor a todos os seres com uma paixão crescente.

 

O equilíbrio do masculino e do feminino

lakshmi shivaA Ayurveda relata o conceito de Ardh-nar-ishwar (ver a imagem), em que cada indivíduo é feito de um aspecto divino masculino e de um aspecto divino feminino. O equilíbrio entre essas polaridades produz o equilíbrio a todos os níveis (físico, mental, emocional e espiritual) do indivíduo. A integração do masculino e feminino através da união sexual promove também o equilíbrio. Tanto os homens como as mulheres têm hormonas, embora os homens tenham predominância de testosterona, e menor quantidade de estrogénio e progesterona. Nas mulheres, o estrogénio e a progesterona existem numa maior concentração, e a testosterona em menor concentração. Os bons níveis de testosterona, tendem a melhorar o desejo sexual e melhorar a saúde geral entre homens e mulheres. Ainda assim, o equilíbrio é essencial porque muita testosterona nas mulheres pode levar a doenças, enquanto o excesso de estrogénio entre os homens pode levar também a doenças e vice-versa.

Ainda assim, todas as pessoas têm uma expressão masculina e feminina no seu interior, embora externamente o comportamento individual recaia num dos géneros. O parceiro sexual representa o aspecto oposto dessa expressão no exterior. Assim, a união sexual tem a capacidade de promover o equilíbrio entre o masculino e o feminino interior. O conceito de “Ardh-nar-ishwar” pede aos amantes que se aproximem da união sexual, tendo presente que durante o ato sagrado entram em intimidade com o Divino através do ser amado. Isso requer envolver-se com o parceiro em profunda envolvência, amor e vulnerabilidade. Este envolvimento profundo promove a satisfação divina nos relacionamentos, e promove a inteligência emocional na relação.

Mesmo no que concerne às hormonas, nas 24 horas após a união sexual há um aumento da hormona do crescimento observado em ambos os sexos. Essa hormona produz um impacto positivo na composição corporal, na força muscular, no desempenho físico, no sistema cardiovascular, no metabolismo e na função imunológica. Uma atitude de sacralidade e união divina purifica o efeito desses resultados positivos da atividade sexual, tornando-a um ato de cura, em vez de uma necessidade primordial.

 

Disfunções na Sexualidade

Os problemas de disfunção sexual são prevalecentes em homens e mulheres de meia-idade e idosos. A testosterona, o estrogénio e a progesterona são as principais hormonas que afetam as funções sexuais entre os homens e as mulheres.

O estilo de vida, e a qualidade da alimentação quotidiana tem contribuído largamente para um crescente nível de infertilidade tanto nos homens como nas mulheres. Nos homens a tendência apresenta-se no défice da qualidade e na falta de motilidade dos espermatozoides. Entre as mulheres, os problemas prevalecentes surgem através de desequilíbrios hormonais, para além do baixo interesse sexual, a dor durante o coito, e a falta de prazer e intimidade.

À medida que envelhecemos, os homens experimentam andropausa, uma queda nas hormonas andrógenas; e as mulheres experimentam a menopausa, uma queda nas hormonas estrogénicas. Estas contribuem para o aumento dos níveis de disfunção sexual entre os idosos. A Ayurveda possui as ferramentas para o resgate e a manutenção dos fluidos sexuais, para uma atividade sexual ideal, equilibrada e prazerosa.

 

Ervas para a saúde sexual

Para além de uma correta e adequada atitude emocional e espiritual em relação à sexualidade, são muito importantes atitudes que levam a um senso compartilhado de responsabilidade, comunicação aberta, integridade e atenção plena na relação. A atividade sexual é também uma forma de exercício, e quando a pessoa abandona a atividade sexual, toda a musculatura envolvida fica enfraquecida. A Ayurveda fornece ferramentas simples para superar esses desafios.

Na Medicina Ayurvédica são descritos dois ramos específicos de ervas chamados rasayana e vajikarana. As ervas Rasayana são medicamentos rejuvenescedores e holísticos nas suas funções regenerativas. Estas ervas promovem efeitos tonificantes em todos os tecidos do corpo, que acabam por se transmutar no shukra dhatu e no ojas. As ervas Vajikarana são ervas regenerativas que promovem a eficácia do shukra dhatu ou tecidos sexuais, incluindo as hormonas e os órgãos físicos. Estas são algumas das ervas que são benéficas em termos de rasayana e vajikarana:

 

Ashwagandha – Withania somnifera – Esta é uma erva rasayana, uma erva rejuvenescedora. A principal função da Ashwagandha é rejuvenescer as enzimas antioxidantes do corpo, controlando os danos relacionados com a oxidação em todos os tecidos do corpo. Esta ação contribui para a atividade antienvelhecimento da Ashwagandha. As lactonas esteróides continas na Ashwagandha também ajudam a regular as hormonas sexuais.

Em estudos clínicos, o tratamento com a Ashwagandha triplicou a virilidade nos homens com baixa contagem de espermatozoides, bem como melhorou a motilidade dos espermatozoides. O benefício também foi observado em homens normais; neles, a virilidade melhorou em 50%. Noutro outro estudo, quando administrada a homens com baixa contagem de espermatozoides, a Ashwagandha aumentou a contagem de espermatozoides em 167%, o volume de sémen em 53% e a motilidade dos espermatozoides em 57%. Assim, pode-se comprovar a forma como a Ashwagandha promove a função normal em todos os níveis dos tecidos, restaurando a função sexual e a vitalidade.

Shatavari – Esparagos rancemosus – A Shatavari é considerada o principal tónico de saúde para as mulheres na medicina ayurvédica. A Shatavari é uma das fontes mais ricas de fitoestrogénios na forma de saponinas esteroidais (Shatavarin I-IV) e isoflavonas (diadzin e genestien). Estes compostos são essenciais para o efeito da shatavari na função sexual. Um estudo clínico revelou que entre as mulheres jovens, a shatavari melhorou a maturação do ovo e a ovulação. Entre as mulheres mais velhas, a shatavari ajudou a aliviar os sintomas da menopausa e a tonificar os órgãos sexuais. É também uma fonte de vários minerais, incluindo zinco, manganês, cobalto, cobre, potássio, cálcio, magnésio, etc.

Muitas mulheres experimentam secura vaginal e relação sexual dolorosa à medida que envelhecem, isto deve-se à queda dos níveis de estrogénios. Os cremes de estrogénio proporcionam alívio, contudo é tradicional usarem-se na Medicina Ayurvédica, entre outras receitas, óvulos de ghee com shatavari para colmatar a secura vaginal, com resultados muito positivos.

Gokhsura – Tribulus terrestris – Esta erva é comumente reconhecida como um afrodisíaco. A Gokhsura pode afetar os níveis hormonais; os pesquisadores observaram que o extrato de Tribulus tem a capacidade de elevar os níveis de uma hormona reguladora, a hormona luteinizante, bem como todos os andrógenos, incluindo a testosterona e diidrotestosterona. Foi também observado que a Tribulus melhora o interesse sexual e a função sexual nos homens.

Shilajit – Asphaltum punjabium – Este medicamento único é fruto de material vegetal petrificado, uma espécie de argila, que é colhida em pequenas quantidades a partir de rochas íngremes em altitudes entre 1000 e 5000 metros entre as montanhas do Himalaia. É considerado uma excelente fonte de 85 minerais na sua forma iónica. No estudo clínico em homens, o shilajit aumentou os níveis de hormonas testosterona e hormonas folículos estimulantes. Esses homens também tiveram uma melhoria de 61% na contagem de espermatozoides, e a motilidade melhorou em 18% com 90 dias de tratamento.

 

Fiel à sua tradição holística, a medicina ayurvédica prescreve essas ervas no contexto de mudanças dietéticas e de estilo de vida, e sempre com seguimento de um médico ou terapeuta de Ayurveda. Dieta à base de plantas, exercícios regulares e sono adequado são essenciais para a cura e a eficácia de qualquer medicamento. Estes podem ser melhorados com a prática regular de exercícios respiratórios e meditação, que promovem a transformação emocional e espiritual.

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Celebrar a Ayurveda – a Ciência da Longevidade

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No próximo dia 5 de novembro de 2018 celebra-se, pela segunda vez, o Dia Internacional da Ayurveda. O recém criado Ministério do Yoga e Ayurveda do governo indiano fez recair a escolha do dia da Ayurveda em consonância com a celebração do dia de aniversário do Senhor Dhanwantari (Dhanwantari Jayanti), o lendário Deus Hindu da Medicina, o Mestre do Conhecimento Universal, Médico dos Deuses e a Deidade Guardião dos Hospitais, o Senhor Dhanwantari é também o patrono da Ayurveda.

Segundo a lenda, os deuses e os demónios criaram o néctar da Imortalidade – o amrita – batendo e agitando o oceano leitoso, e o Senhor Dhanwantari emergiu das águas oceânicas trazendo uma taça cheia do néctar, com a qual é habitualmente representado. dhanvantariO néctar, amrita,  é considerado a panaceia para todas as doenças e enfermidades, e a partilha que o Senhor Dhanwantari faz do conhecimento da Ayurveda, da Sabedoria inerente aos processos da Vida constituem só por si um Elixir para a Longevidade.

Independentemente da história mitológica do surgimento da Medicina Ayurvédica, a Ayurveda é atualmente aceite como o sistema médico mais antigo, mais original e ininterrupto do mundo,  reconhecido pela Organização Mundial de Saúde como um sistema médico coerente e eficaz.

O conceito

Somos seres plenos de Energia e Vontade de Viver que desde os primórdios da nossa existência procuramos a Paz e a Prosperidade. Experimentamos a Vida através dos nossos corpos, que manifestam unicidade e adaptação às necessidades de vivência individuais, providos de meios naturais de auto manutenção e cura.

A nossa memória acumula e arquiva a experiência adquirida através de vivências físicas, emocionais, mentais e espirituais. Todos os momentos que vivemos impregnam os nossos sentidos com uma tremenda quantidade de informação, em que todos os pormenores são importantes: cada golfada de ar, cada raio de Sol, cada alegria, e cada tristeza, cada escolha, sabor, aroma que saboreamos. Todas as experiências vivenciadas constituem uma dádiva, uma graça plena da Energia Vital que nos anima, e plena do conhecimento que nos permite enfrentar cada desafio da vida – nos seus vários níveis – com equilíbrio e confiança.

Dentro deste contexto de integração, de entendimento e de harmonia com a Natureza surge a Ayurveda. Ayus (Vida, movimento, seres vivos, modo diário de vida) e Veda (revelação; conhecimento empírico que deriva da observação e da experimentação) é a Ciência da Vida quotidiana, da Vida Plena, da Saúde e Longevidade, da Cura. A Ayurveda é o Manual de Instruções de que muitos sentem a falta para lidar com o seu quotidiano. Pleno de recomendações e linhas orientadoras, o conhecimento ayurvédico tem como propósito final ajudar a materializar uma vivência plena, saudável, consciente, e por isso tudo, feliz. A Ayurveda é uma medicina para a manifestação do Amor à vida no quotidiano.

RishiO conhecimento ayurvédico remonta há pelo menos 5 mil anos, trazido até nós primeiro através da tradição oral, e posteriormente através dos Samhitas, os Compêndios que aglomeram o grosso dos princípios da Medicina Ayurvédica. É um sistema holístico de medicina cujo conhecimento evoluiu a partir do conhecimento empírico, e também da observação, da “iluminação” prática, filosófica e religiosa dos Rishis (seres antigos realizados, ou videntes da verdade). Estes sábios alcançaram o conhecimento através de intensa e profunda meditação, compreendendo a dimensão da Vida a um nível subtil, compreendendo a matéria como partículas com diferentes intensidades de vibração – como só muito mais tarde viria a ser cientificamente entendido nos conceitos da Física Quântica –, e aplicaram esse conhecimento para estabelecer princípios de equilíbrio e orientação para a nossa prosaica vida diária. No estreito relacionamento entre o homem e o universo, os Rishis perceberam como se manifesta a energia cósmica em todas as coisas vivas e não-vivas, e esse conhecimento é utilizado desde então para ajudar a manifestar no quotidiano o propósito último do ser humano: a Felicidade e Realização plena.

A Ayurveda manifesta assim, uma filosofia de vida que está em comunhão com o Cosmos, na qual se integra a Medicina Ancestral da tradição Indiana, e que oferece na sua abordagem terapêutica, e pelo seu carácter preventivo e educativo, o fundamento para a manutenção quotidiana de uma saúde realizada, plena, holística.

O sistema de cura ayurvédico ajuda a pessoa sadia a manter a saúde, e a pessoa doente a recuperá-la. A prática da Ayurveda é indicada para promover o bem-estar, a saúde e o desenvolvimento criativo do ser humano. Por isso preconiza que a responsabilidade perante o estado de Saúde geral do indivíduo pertence ao próprio, sendo ele o agente restaurador do seu bem-estar, pela introdução de hábitos alimentares equilibrados, e cuidados com o corpo, com as emoções, a mente e o espírito. Através do equilíbrio apropriado de todas as energias do corpo, os processos de deterioração física e doença podem ser reduzidos, promovendo-se a capacidade de autocura individual.

Na Ayurveda, a jornada da vida na sua totalidade é considerada sagrada. A sua grande verdade é Ser, Existência Pura, Fonte de toda a vida.

Numa abordagem mais profunda e completa, a Ayurveda, o Yoga e o Tantra são as antigas disciplinas tradicionais de vida na Índia. O Yoga é a ciência da união com o Divino, o Tantra é um método de trabalho com a grande energia criadora de Vida e a Ayurveda é a ciência da Vida. O propósito de cada prática é ajudar a pessoa a alcançar longevidade, rejuvenescimento e a autorrealização.

Na evolução espiritual do homem, a Ayurveda é a base, o Yoga é o corpo e o Tantra a cabeça. Primeiro é necessário compreender a Ayurveda a fim de experimentar as práticas do Yoga e do Tantra. Assim a Ayurveda, o Yoga e o Tantra formam uma trindade de vida interdependente. A saúde do corpo, mente e consciência dependem do conhecimento e prática dos três na vida diária.

A prática

Respeitando o carácter profundamente preventivo, a Ayurveda tem como base os cuidados diários de saúde através de uma cuidada prática de Rotina Diária – Dina Charya, que tem o propósito de manter o nosso equilíbrio e fomentar a longevidade.

eight-branches-of-ayurvedaApesar de no Ocidente a sua prática ser ainda muito orientada basicamente como uma suave Medicina preventiva, na Índia a Ayurveda é praticada de acordo com oito especialidades – o Astanga. As divisões de especialidades do Ayurveda surgem ainda nos Vedas. O Atharva Veda consiste predominantemente em Bhutavidya (psiquiatria) e em Sarpavidya (toxicologia). Além dos dois acima, Rasayana (ciência do rejuvenescimento, atualmente conectado com a Geriatria) e Vajikarana (Medicina Reprodutiva e Afrodisíacos) que são também encontradas no Brahmanas e no Upanishads. A Ayurveda contém além das quatro divisões acima, outras quatro a saber Salya (cirurgia), Salyaka (otorrinolaringologia), Kaya-Chikitsa (medicina interna) e Kaumara-Bhrtya (Pediatria, Ginecologia e Obstetrícia). O conhecimento sobre estas últimas quatro divisões existiu antes, mas tornou-se sistemático com a origem do Astanga Ayurveda (As Oito Divisões da Ayurveda) aproximadamente entre 800-600 a.C.

Dentro das Medicinas Tradicionais, a Ayurveda tem sido a última a ganhar o seu lugar e reconhecimento público. Apesar dos revezes históricos que coloriram a disseminação da Medicina Ayurvédica, o seu conhecimento prático – como Medicina primeira – acabou por orientar o surgimento de várias outras Medicinas, sendo a base e edificando os conhecimentos médicos atuais, incluindo os da Medicina Ocidental. A Ayurveda é uma Medicina Ancestral orientada por princípios visionários que colocam a saúde holística como a base para o desenvolvimento da plenitude e consciência no Ser Humano.